Bate-papos são comuns no exterior
Prova disso é a chegada ao País da série promovida pela Believer entre escritores
Ubiratan Brasil
O encontro marcado entre Ana Maria Machado e Moacyr Scliar com a finalidade de produzir um livro ainda é um fato raro no Brasil, ao contrário de outros países - revistas literárias de graduações diversas promovem estimulantes diálogos entre escritores de almas gêmeas. A Believer, por exemplo, é uma das publicações mais importantes dos Estados Unidos. Com apenas dez exemplares lançados por ano, ela se define como "uma revista sobre autores e livros de que gostamos". E é justamente uma seleção das entrevistas promovidas pela Believer que confere o charme de Conversas entre Escritores (tradução de Irinêo Netto, Miguel Nicolau Abib Neto e Ernesto Klüpel, 315 páginas, R$ 59), mais recente publicação da Arte & Letra, interessante editora de Curitiba.
Trata-se da reunião de 21 bate-papos entre autores, em sua maioria de língua inglesa. Nomes do naipe como John Banville, Ian McEwan, Paul Auster, Haruki Murakami, Orhan Pamuk, Zadie Smith e Dave Eggers que, além de escrever roteiros para filmes de sucesso (Onde Vivem os Monstros), também é o fundador da editora McSweeny"s, que lança a Believer. E ele comanda ainda uma das conversas mais interessantes, em que a escritora e jornalista Joan Didion (autora do belo O Ano do Pensamento Mágico, lançado aqui pela Nova Fronteira) se despe de qualquer esnobismo que a profissão poderia lhe permitir (confira trecho no alto desta página).
Boa parte das entrevistas aconteceu no início desta década, o que transforma certos assuntos da época em pauta recorrente. Como o atentado terrorista de 11 de setembro de 2001, que derrubou as torres gêmeas em Nova York. O tema norteia, por exemplo, o início da conversa (aliás, uma das melhores do livro) entre Zadie Smith e Ian McEwan que, naquele momento (2004), recém-lançara Sábado (Companhia das Letras), romance que aborda o 11 de Setembro de forma oblíqua. "Fica claro que o fato ocorrido naquele dia já era um incidente típico de um livro seu", pondera Zadie, que se revela profunda conhecedora da obra do inglês. "Porque, de qualquer forma, a explosão do irracional dentro do racional era o seu "modus operandi". Porque sua ficção já era sobre a ideia de uma intervenção maligna."
McEwan concorda, afirmando que o trágico incidente representou um momento glorioso para o jornalismo - afinal, em todo o mundo, jornais mudaram radicalmente sua pauta e produziram diversos cadernos em pouco tempo. Daí sua intenção de, ao escrever Sábado, não produzir ficção. "Mesmo enquanto escrevia, pensava que, para tornar a situação mais humana, seria preciso mais que jornalismo, seria necessário algo mais íntimo que isso. Lembrar que várias daquelas pessoas declaram seus amores pelo celular..."
Dissecar o "modus operandi", aliás, é um grande motivador das entrevistas. Os escritores não escondem sua curiosidade em descobrir as motivações que levaram o colega a enveredar por tal caminho. Julie Orringer, por exemplo, especula com Tobias Wolff se sua passagem pelo colégio interno foi decisiva para, no futuro, aprender a manipular a verdade em proveito próprio. "Quando saí do internato, já sabia que queria ser escritor", responde ele. "Isso pode soar incomum ou, no mínimo, oportunista, mas, quando cheguei lá, sabia que um dia escreveria sobre aquele lugar."
Angústia provocada pelo ato da escrita, aliás, já era um tema tratado por Clarice Lispector que, no fim dos anos 1960, entrevistou personalidades para a revista Manchete para complementar o orçamento doméstico. Entre seus preferidos estavam, claro, outros autores. Era nesses momentos, na verdade, que Clarice revelava suas inquietações com o ofício, buscando compartilhar as dúvidas. "Fernando (Sabino), por que é que você escreve? Eu não sei porque escrevo, de modo que o que você disser talvez sirva para mim", diz ela, na conversa reunida em Entrevistas (Rocco). Incerteza que, além de universal, parece eterna.
Conversa entre famosos
"Como consequência de meu incêndio, passei quase três meses no hospital. E recebia visitas até de estranhos. Não acredito que não se tenha amigos. É que são raros"
CLARICE LISPECTOR
"Uma vez, fiquei gravemente doente. Recebi em três meses de agonia três visitas, uma por mês. Aí, eu sofri na carne e na alma esta verdade intolerável: o amigo não existe"
NELSON RODRIGUES
"Quando você vê um escritor se mover na direção de sua fase mais criativa, sempre imagino que ele conseguiu encontrar o seu tempo ou que seu tempo conseguiu
encontrá-lo"
ZADIE SMITH
"Sempre achei que a crueldade é uma falha da imaginação. E sei que incluo
nisso a possibilidade de que alguém tenha extrema empatia pela sua vítima"
IAN McEwan
"Porque a prosa de Didion é tão extraordinariamente precisa, alguns esperam que, ao vivo, ela seja uma contadora de causos. Na realidade, ela é uma pessoa"
DAVE EGGERS
"Continuo pensando que somos capazes de aprender. Que vamos perceber o valor daquilo que temos e assumir o compromisso de investir na universidade"
JOAN DIDION
Ola , Pessoal, Sejam bem Vindos! A Partir de agora meu antigo Blog passa a meu canal de Vendas de Livros ! Lançamentos, Raros e Esgotados
quinta-feira, 4 de março de 2010
quarta-feira, 3 de março de 2010
Arte vendida?
Arte vendida
Para que ela serve hoje? Enriquecer os vigaristas
LUÍS ANTÔNIO GIRON
ditor da seção Mente Aberta de ÉPOCA, escreve sobre os principais fatos do universo da literatura, do cinema e da TV
Estive em Londres na semana passada e, toda vez que vou para lá, quando sobra algum tempo, procuro dar uma olhada no que acontece nas artes e nos espetáculos. Porque a capital britânica é um dos sismógrafos culturais do mundo (São Paulo também é). O que ela detecta acaba por se espalhar pelo mundo. A novidade é que o interesse do público londrino pela arte contemporânea anda crescendo muito. Até mesmo a ala conservadora acha chique hoje visitar exposições. Três em especial tiveram grande concorrência de um mês para cá: a do escultor Anish Kapoor, que se encerrou dia 10 na tradicional Royal Academy – que até pouco tempo atrás vedava a entrada de artistas vivos –, a retrospectiva da francesa Sophie Calle – "Talking to Strangers", na Whitechapel Gallery em cartaz até 3 de janeiro, e a mais importante de todas, a exibição "Pop Life: Art in a Material World" (Vida pop: a arte em um mundo material), na Tate Modern até 17 de janeiro, com obras de Andy Warhol, Jeff Koons, Damian Hirst, Takashi Murakami e outros.
Os chamarizes são um tanto toscos, mas sintomáticos da qualidade do interesse atual pelo fenômeno contemporâneo. Anish Kapoor fez sucesso porque acionava um canhão contra uma parede multicolorida de cera dezenas de vezes ao dia, criando obras de quase acaso e provocando o riso nervoso da plateia. Sophie Calle se diz a criadora da arte da autoficção, ou seja, uma espécie de culto histérico à personalidade que consiste em fazer da própria vida uma eterna instalação, um eterno happening. Está fazendo sucesso. Na Tate, o pessoal vai para espiar a sala secreta de Jeff Koons, com a série "Made in Heaven" (Feito no céu), com fotografias e esculturas pornográficas que mostram o artista copulando em 1991 com a ex-parlamentar e prostituta Cicciolina. Uma escultura gigantesca em acrílico e cores berrantes que mostra o casal no auge do acasalamento é o ícone da exposição. Há outras salas escandalosas, só que a de Koons supera todas pelo exibicionismo – e obtém a pronta resposta do público. Não é novidade: ponha sexo, que todo mundo comparece.
Minha primeira impressão foi de que a Tate Modern, um altar da arte experimental, finalmente se rendeu aos mercenários mais descarados da arte. Na epígrafe da exibição, vem o autor do termo e da tela em acrílico que traz as palavras em néon “Pop Life”: Andy Warhol (1926-1987), o pai da pop art. Entre tantas frases de efeito de Warhol, uma foi destacada para dar sentido ao evento: "Arte boa é bom negócio" (Good art is good business). Mas logo me dei conta de que a intenção do curador principal da exposição, Jack Bankowsky, editor da revista Artforum, era provocar o espectador e fornecer uma reflexão crítica e negativa sobre os rumos que a arte tomou nos últimos 30 anos. Nesse período houve uma crescente banalização acompanhada de mercantilização da obra de arte.
Saiba mais
»Leia outras colunas de Luís Antônio Giron
A mostra coloca a fase final de Warhol como o centro irradiador de um movimento que chega até nossos dias. Trata-se da exacerbação da ideia do artista-celebridade, dono de uma fábrica (Factory, fábrica em inglês, era o nome do ateliê de Warhol em Nova York). Ele vira um entrepeneur capaz de produzir lucros cada vez maiores com obras de arte cada vez mais repetitivas e massificadas.
Warhol ficou famoso nos anos 60 por ter levado a lata de sopa Campbell's para os museus, destruindo assim qualquer resquício da aura na obra de arte. Foi uma atitude renovadora, pois levantou a discussão sobre as diferenças entre arte culta e popular, aura e automação. No fim da vida, porém, Warhol levou seu cinismo ao extremo. Em vez de se renovar, pôs em prática aquilo que havia vaticinado vinte anos antes: a “pós-arte”. Falido, ele tratou de repetir suas pinturas de acrílico e silk-screen com auto-retratos, caras de Marilyn Monroe e sopas Campbell's, para assim vender mais rapidamente. Ele que já tinha uma queda para o mundo dos famosos passou a aparecer ainda mais nos anos 80. Como uma caricatura de si próprio, participou de programas cômicos, apresentou um talk show de moda e reproduziu sua técnica em tudo quanto foi capa de revista. Chegou a apresentar um comercial de videocassete no Japão. Tudo isso é exibido em vídeo na mostra. O artista virou o paparazzi de si mesmo. Em suas últimas obras, fez descontos em retratos para celebridades e assinou em pernas de modelos. Também produziu um retrato de seu namorado, o artista Jean-Michel Basquiat (1960-1988), com tinta acrílica e manchas de urina sobre a tela. Horrível. Mas é só o início da exposição.
Os discípulos de Warhol são ainda mais podres. Não inventaram nada, apenas copiaram os piores procedimentos da fase mais medíocre do “mestre”. Seu protegé Keith Haring (1958-1990) montou nos anos 80 a loja Pop Shop em Nova York para vender subprodutos de seus grafites. O já citado Jeff Koons (está vivo, o infeliz) vampirizou mulheres famosas para produzir sua pornografia. E criou um abjeto coelho de aço inoxidável usado na inauguração de uma temporada de liquidação da loja Bloomingdale's em Nova York. O alemão Martin Kippenberger (1953–1997) se produziu em auto-retratos e pichações em Berlim. Quis se vender como astro boêmio (conversei esse cara em Berlim um ano antes de ele morrer, patético) e ficou famoso depois de morto.
O modelo maior do culto à própria personalidade e do mercenarismo é Damian Hirst (nascido em 1965), um dos YBAs (Young British Artists) que comecou a aparecer em 1990 com telas de bolinhas coloridas produzidas em série por uma equipe e ganhou notoriedade em 2008 quando decidiu colocar sua obra diretamente nos leilões, sem passar por galerias de arte. Foi assim que, enquanto o mundo mergulhava numa recessão, ele ficou milionário da noite para o dia por causa de um leilão da Sotheby's. Algumas de suas “obras” estão na mostra: a caixa "O beijo de midas", que mostra uma estante de diamantes cinzelados (um eco das fotografias escuras que Warhol fez no fim da vida de sua joias), e o famoso "Bezerro", um animal empalhado, fixado no chão por ferraduras de ouro, mergulhado em formol em uma caixa de vidro. Arte para Hirst é venda mesmo e não tem conversa. Quem quer pagar que pague. É o artista-obra (Sophie Calle ficaria bem na exposição).
Esta é mais ou menos a postura do japonês Takashi Murakami (nascido em 1963). Na sala mais espalhafatosa da mostra figuram as peças dele. Há uma espécie de pokémon vermelho com olho furado e a boca aberta, onde estão copos de papel e hambúrgueres cravejados de joias. Um afresco imenso representa a princesa Majokko, a personagem de mangá dos otakus do bairro de Akihabara de Tóquio – o paraíso das histórias em quadrinhos. Os cabelos azuis, as minissaias e as meias xadrez de Majokko inspiram até hoje as lolitas japonesas. Em um telão, a atriz Kirsten Dunst participa de um videoclipe dirigido por McG e Murakami. Ela é a Majokko em seu elemento, Akihabara, batendo papo e dançando com todo otaku que encontra pela frente. Eu falei com Murakami na Bienal de 2004. O sujeito acreditava que o que fazia era o futuro. “Minha arte representa o futuro”, disse na ocasião. “É só uma questão de tempo. Por isso que tenho de produzir rapidamente minha obra.” Cumpriu o que disse. Sua arte não usa apenas a linguagem do animê e do mangá, como também seus artistas. Murakami mantém seu "ateliê" em Akihabara, cercado de jovens que ambicionam conquistar o mundo com uma espécie de apologia da “leveza” (eu leio: “idiotice”) da imagética mangá. Na verdade, a obra de Murakami revela o seu patético fascínio pelo Ocidente naquilo que o Ocidente tem de pior. Eu prefiro animê de verdade que esse tipo de arremedo cretino.
Estar diante desse tipo de obra causa um desconforto e uma espécie de alívio. Pelo menos no que diz respeito a mim, saí da exposicão com asco de arte. Nem quis continuar a visita pelos sete andares da Tate Modern. Se tudo o que foi realizado antes veio dar nisso, então é melhor ficar sem ela. Melhor esquecê-la. A arte só está servindo para enriquecer esses vigaristas que se dizem artistas: vigartistas. As obras de Hirst, Murakami e outros empobrecem o olhar, aniquilam a sensibilidade, rebaixam o visitante com sua riqueza obscena. Num mundo totalmente materialista, a arte rasteja na lama, no sexo, na futilidade e na morte para vender mais em leilões de banqueiros. Se antes as pessoas lamentavam que a arte havia abdicado da beleza, agora ela perdeu a aura, o respeito, a vergonha e – pior – a capacidade de ao menos chocar. Vai demorar, mas espero me recuperar do enjoo.
(Luís Antônio Giron escreve às terças-feiras.)
Para que ela serve hoje? Enriquecer os vigaristas
LUÍS ANTÔNIO GIRON
ditor da seção Mente Aberta de ÉPOCA, escreve sobre os principais fatos do universo da literatura, do cinema e da TV
Estive em Londres na semana passada e, toda vez que vou para lá, quando sobra algum tempo, procuro dar uma olhada no que acontece nas artes e nos espetáculos. Porque a capital britânica é um dos sismógrafos culturais do mundo (São Paulo também é). O que ela detecta acaba por se espalhar pelo mundo. A novidade é que o interesse do público londrino pela arte contemporânea anda crescendo muito. Até mesmo a ala conservadora acha chique hoje visitar exposições. Três em especial tiveram grande concorrência de um mês para cá: a do escultor Anish Kapoor, que se encerrou dia 10 na tradicional Royal Academy – que até pouco tempo atrás vedava a entrada de artistas vivos –, a retrospectiva da francesa Sophie Calle – "Talking to Strangers", na Whitechapel Gallery em cartaz até 3 de janeiro, e a mais importante de todas, a exibição "Pop Life: Art in a Material World" (Vida pop: a arte em um mundo material), na Tate Modern até 17 de janeiro, com obras de Andy Warhol, Jeff Koons, Damian Hirst, Takashi Murakami e outros.
Os chamarizes são um tanto toscos, mas sintomáticos da qualidade do interesse atual pelo fenômeno contemporâneo. Anish Kapoor fez sucesso porque acionava um canhão contra uma parede multicolorida de cera dezenas de vezes ao dia, criando obras de quase acaso e provocando o riso nervoso da plateia. Sophie Calle se diz a criadora da arte da autoficção, ou seja, uma espécie de culto histérico à personalidade que consiste em fazer da própria vida uma eterna instalação, um eterno happening. Está fazendo sucesso. Na Tate, o pessoal vai para espiar a sala secreta de Jeff Koons, com a série "Made in Heaven" (Feito no céu), com fotografias e esculturas pornográficas que mostram o artista copulando em 1991 com a ex-parlamentar e prostituta Cicciolina. Uma escultura gigantesca em acrílico e cores berrantes que mostra o casal no auge do acasalamento é o ícone da exposição. Há outras salas escandalosas, só que a de Koons supera todas pelo exibicionismo – e obtém a pronta resposta do público. Não é novidade: ponha sexo, que todo mundo comparece.
Minha primeira impressão foi de que a Tate Modern, um altar da arte experimental, finalmente se rendeu aos mercenários mais descarados da arte. Na epígrafe da exibição, vem o autor do termo e da tela em acrílico que traz as palavras em néon “Pop Life”: Andy Warhol (1926-1987), o pai da pop art. Entre tantas frases de efeito de Warhol, uma foi destacada para dar sentido ao evento: "Arte boa é bom negócio" (Good art is good business). Mas logo me dei conta de que a intenção do curador principal da exposição, Jack Bankowsky, editor da revista Artforum, era provocar o espectador e fornecer uma reflexão crítica e negativa sobre os rumos que a arte tomou nos últimos 30 anos. Nesse período houve uma crescente banalização acompanhada de mercantilização da obra de arte.
Saiba mais
»Leia outras colunas de Luís Antônio Giron
A mostra coloca a fase final de Warhol como o centro irradiador de um movimento que chega até nossos dias. Trata-se da exacerbação da ideia do artista-celebridade, dono de uma fábrica (Factory, fábrica em inglês, era o nome do ateliê de Warhol em Nova York). Ele vira um entrepeneur capaz de produzir lucros cada vez maiores com obras de arte cada vez mais repetitivas e massificadas.
Warhol ficou famoso nos anos 60 por ter levado a lata de sopa Campbell's para os museus, destruindo assim qualquer resquício da aura na obra de arte. Foi uma atitude renovadora, pois levantou a discussão sobre as diferenças entre arte culta e popular, aura e automação. No fim da vida, porém, Warhol levou seu cinismo ao extremo. Em vez de se renovar, pôs em prática aquilo que havia vaticinado vinte anos antes: a “pós-arte”. Falido, ele tratou de repetir suas pinturas de acrílico e silk-screen com auto-retratos, caras de Marilyn Monroe e sopas Campbell's, para assim vender mais rapidamente. Ele que já tinha uma queda para o mundo dos famosos passou a aparecer ainda mais nos anos 80. Como uma caricatura de si próprio, participou de programas cômicos, apresentou um talk show de moda e reproduziu sua técnica em tudo quanto foi capa de revista. Chegou a apresentar um comercial de videocassete no Japão. Tudo isso é exibido em vídeo na mostra. O artista virou o paparazzi de si mesmo. Em suas últimas obras, fez descontos em retratos para celebridades e assinou em pernas de modelos. Também produziu um retrato de seu namorado, o artista Jean-Michel Basquiat (1960-1988), com tinta acrílica e manchas de urina sobre a tela. Horrível. Mas é só o início da exposição.
Os discípulos de Warhol são ainda mais podres. Não inventaram nada, apenas copiaram os piores procedimentos da fase mais medíocre do “mestre”. Seu protegé Keith Haring (1958-1990) montou nos anos 80 a loja Pop Shop em Nova York para vender subprodutos de seus grafites. O já citado Jeff Koons (está vivo, o infeliz) vampirizou mulheres famosas para produzir sua pornografia. E criou um abjeto coelho de aço inoxidável usado na inauguração de uma temporada de liquidação da loja Bloomingdale's em Nova York. O alemão Martin Kippenberger (1953–1997) se produziu em auto-retratos e pichações em Berlim. Quis se vender como astro boêmio (conversei esse cara em Berlim um ano antes de ele morrer, patético) e ficou famoso depois de morto.
O modelo maior do culto à própria personalidade e do mercenarismo é Damian Hirst (nascido em 1965), um dos YBAs (Young British Artists) que comecou a aparecer em 1990 com telas de bolinhas coloridas produzidas em série por uma equipe e ganhou notoriedade em 2008 quando decidiu colocar sua obra diretamente nos leilões, sem passar por galerias de arte. Foi assim que, enquanto o mundo mergulhava numa recessão, ele ficou milionário da noite para o dia por causa de um leilão da Sotheby's. Algumas de suas “obras” estão na mostra: a caixa "O beijo de midas", que mostra uma estante de diamantes cinzelados (um eco das fotografias escuras que Warhol fez no fim da vida de sua joias), e o famoso "Bezerro", um animal empalhado, fixado no chão por ferraduras de ouro, mergulhado em formol em uma caixa de vidro. Arte para Hirst é venda mesmo e não tem conversa. Quem quer pagar que pague. É o artista-obra (Sophie Calle ficaria bem na exposição).
Esta é mais ou menos a postura do japonês Takashi Murakami (nascido em 1963). Na sala mais espalhafatosa da mostra figuram as peças dele. Há uma espécie de pokémon vermelho com olho furado e a boca aberta, onde estão copos de papel e hambúrgueres cravejados de joias. Um afresco imenso representa a princesa Majokko, a personagem de mangá dos otakus do bairro de Akihabara de Tóquio – o paraíso das histórias em quadrinhos. Os cabelos azuis, as minissaias e as meias xadrez de Majokko inspiram até hoje as lolitas japonesas. Em um telão, a atriz Kirsten Dunst participa de um videoclipe dirigido por McG e Murakami. Ela é a Majokko em seu elemento, Akihabara, batendo papo e dançando com todo otaku que encontra pela frente. Eu falei com Murakami na Bienal de 2004. O sujeito acreditava que o que fazia era o futuro. “Minha arte representa o futuro”, disse na ocasião. “É só uma questão de tempo. Por isso que tenho de produzir rapidamente minha obra.” Cumpriu o que disse. Sua arte não usa apenas a linguagem do animê e do mangá, como também seus artistas. Murakami mantém seu "ateliê" em Akihabara, cercado de jovens que ambicionam conquistar o mundo com uma espécie de apologia da “leveza” (eu leio: “idiotice”) da imagética mangá. Na verdade, a obra de Murakami revela o seu patético fascínio pelo Ocidente naquilo que o Ocidente tem de pior. Eu prefiro animê de verdade que esse tipo de arremedo cretino.
Estar diante desse tipo de obra causa um desconforto e uma espécie de alívio. Pelo menos no que diz respeito a mim, saí da exposicão com asco de arte. Nem quis continuar a visita pelos sete andares da Tate Modern. Se tudo o que foi realizado antes veio dar nisso, então é melhor ficar sem ela. Melhor esquecê-la. A arte só está servindo para enriquecer esses vigaristas que se dizem artistas: vigartistas. As obras de Hirst, Murakami e outros empobrecem o olhar, aniquilam a sensibilidade, rebaixam o visitante com sua riqueza obscena. Num mundo totalmente materialista, a arte rasteja na lama, no sexo, na futilidade e na morte para vender mais em leilões de banqueiros. Se antes as pessoas lamentavam que a arte havia abdicado da beleza, agora ela perdeu a aura, o respeito, a vergonha e – pior – a capacidade de ao menos chocar. Vai demorar, mas espero me recuperar do enjoo.
(Luís Antônio Giron escreve às terças-feiras.)
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Gabriel Garcia Márquez - O Escritor e o Ditador
Uma nova biografia de Gabriel García Márquez traz detalhes reveladores sobre sua amizade com Fidel Castro. E relança uma velha polêmica - como os escritores devem se relacionar com os poderosos?
Por André Lahóz
gabriel-garcia-marquez-150-g.jpg
Ben Martin//Time Life Pictures/Getty Images / Rolls Press/Popperfoto/Getty Images
O escritor colombiano Gabriel García Márquez e o ditador cubano Fidel Castro. Na Macondo imaginada pelo autor, as eleições não eram para valer. Na Cuba de Fidel também não
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Ben Martin//Time Life Pictures/Getty Images / Rolls Press/Popperfoto/Getty Images O escritor colombiano Gabriel García Márquez e o ditador cubano Fidel Castro. Na Macondo imaginada pelo autor, as eleições não eram para valer. Na Cuba de Fidel também não
Não há eleições em Macondo, a misteriosa cidade em torno da qual se desenrola a sucessão de tramas que compõem Cem Anos de Solidão, obra máxima do colombiano Gabriel García Márquez. Bem, pelo menos não há eleições para valer - a população até é chamada para votar, mas depois as urnas são esvaziadas e novamente preenchidas com votos ao candidato previamente definido pelo governo. Em compensação, não faltam guerras, fuzilamentos e revoluções. Um único oficial, o coronel Aureliano Buendía, promoveu 32 revoluções armadas após se decepcionar com a farsa eleitoral - foi derrotado em todas. As desventuras do coronel são apenas um capítulo da interminável sequência de rebeliões e lutas que estão sempre recomeçando sem levar a lugar algum - e que contribuem para o nítido sotaque latino-americano da obra. Ela nos recorda o quanto parte de nosso continente ainda se alimenta de heróis e de promessas de refundação da nação. E quanto nos parecem enfadonhos a democracia e o lento processo de evolução que ela enseja. Gostamos de aventura, ainda que, ao fim dela, o que sobre seja pouco mais que um "pavoroso rodamoinho de poeira e escombros", como na Macondo ao cabo de um século de história.
Por tudo isso, há um quê de ironia na polêmica gerada com a recém-lançada biografia autorizada de García Márquez, de autoria do inglês Gerald Martin, a ser publicada no Brasil em março (leia reportagem do livro). Nela, Martin dá detalhes da intensa relação de amizade que une o Nobel de Literatura e o líder cubano Fidel Castro. Sim, Gabo - como García Márquez é chamado pelos amigos - adora o ditador Fidel. A ponto de servir-lhe de guarda-costas em uma visita à Colômbia. Nele vê um homem "de costumes austeros, mas de ilusões insaciáveis". Fidel, segundo o escritor, "tem a convicção quase mística de que a maior conquista do ser humano é a boa formação da consciência, e que os estímulos morais, mais que os materiais, são capazes de mudar o mundo e impulsionar a história". Quando fala às massas, Fidel "é a inspiração, o estado de graça irresistível e deslumbrante, que só nega os que não tiveram a glória de tê-lo visto". E considera o cubano "um dos maiores idealistas do nosso tempo". E, sim, o ditador Fidel também adora Gabo. Deu-lhe de presente uma casa num dos bairros mais imponentes de Havana. E já afirmou que gostaria, numa próxima encarnação, de voltar como escritor - "um escritor como Gabriel García Márquez".
Em sua longa presidência, Fidel recebeu o apoio de inúmeras personalidades, inclusive brasileiras, de Chico Buarque a Oscar Niemeyer (o arquiteto, aliás, foi citado por Fidel como exemplo de coerência em sua carta de renúncia em favor do irmão, em dezembro de 2007). Pouco a pouco, porém, à medida que o número de mortos pelo regime crescia, o paraíso terreno prometido pelos revolucionários perdia o encanto. Demorou, mas até mesmo comunistas de longa data, como o também Nobel José Saramago, decidiram que era hora de pular do barco. Aos 82 anos, um a menos que Fidel, Gabo mantém inalterado seu apoio. Apesar do quase nada que resta ao fim de mais uma aventura latino-americana.
Poderia ser apenas excentricidade de um gigante da literatura - Cem Anos de Solidão, um caso raro de best-seller global que deleitou também o mundo das letras, é apontado por alguns críticos como uma das mais importantes obras da língua espanhola, ao lado de Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, O Burlador de Sevilha, de Tirso de Molina, e um punhado de outras. Mas a proximidade de Gabo e Fidel ganha relevo por tratar-se de um fenômeno nada incomum. Não é privilégio do líder cubano ser paparicado por um grande escritor. Antes dele, ditadores de esquerda e de direita receberam a mesma graça. Tome-se o caso de Adolf Hitler, a besta-fera que lançou o mundo no maior conflito da história. Também ele contou com o apoio de inúmeros intelectuais. Martin Heidegger, talvez o principal filósofo do século 20, foi durante 12 anos membro do partido nazista. Günter Grass, também Nobel de Literatura, recentemente admitiu ter participado da Waffen SS, a tropa de elite do nazismo. Outro peso-pesado da literatura, o poeta Ezra Pound, chegou a ler textos homenageando o ditador alemão na rádio italiana durante a Segunda Guerra - nos quais atacava de forma indiscriminada os judeus, o presidente americano Franklin Roosevelt e a intervenção dos Estados Unidos na guerra.
Pound, aliás, apoiou não apenas um, mas dois ditadores - com Benito Mussolini teve certa proximidade, o tendo visitado em seu palácio em Roma e lhe dado livros de poesia. Outro Nobel de Literatura, Camilo José Cela, autor do cultuado A Colmeia, lutou nas trincheiras de Francisco Franco durante a Guerra Civil Espanhola e foi posteriormente acusado de servir como informante do regime franquista. E por aí a lista segue. A despeito da imagem que normalmente temos dos grandes escritores - amantes da liberdade, sem vínculos de nenhuma ordem que possam comprometer sua produção artística -, é incômodo constatar quantos deles se embriagaram com os menos esclarecidos dos déspotas.
A QUESTÃO MORAL
Não é de hoje que a relação entre intelectuais e governantes é complexa. Há quase 2500 anos, os gregos já lidavam com essa questão. Por um lado, o anseio de influenciar a sociedade e interferir na construção do futuro é uma tentação recorrente no mundo das letras. Por outro, não é um caminho sem custo. Ao adentrar a política, o intelectual passa a transitar num mundo que não é o seu - e nem sempre acaba bem. Um marco na relação entre estudiosos e o poder ocorreu no famoso julgamento de Sócrates, filósofo grego acusado por Atenas de corromper a juventude. Os poderosos de então exigiam que Sócrates assumisse sua culpa ou aceitasse a morte por envenenamento. Mas ele não conseguia enxergar seu erro. Aceitar a pena seria pactuar com uma mentira. Sua opção pela cicuta entrou para a história ocidental como o primeiro evento em que um intelectual se recusa a aceitar as verdades estabelecidas. Entre a ética de sua cidade-Estado e sua consciência, ele escolheu a segunda - e fundou, assim, a moral. O seu exemplo serve como régua para momentos críticos da história. Em tempos de ditadura, quem se encolheu e quem seguiu os ditames da própria consciência?
Mas a questão é bem mais complicada do que uma luta entre verdade e mentira. Pois, afinal, há os que adotam ditadores não como rendição, mas como expressão de sua verdade pessoal. Gabo, Saramago e tantos outros seguidores de Fidel não passaram a adorar Cuba por medo da repressão ou com vista ao enriquecimento pessoal. Eles realmente acreditavam - e muitos ainda acreditam - que a revolução na ilha foi um exemplo para a humanidade. Se voltarmos aos gregos, veremos que também lá o apoio à democracia não era universal. Platão tinha sérias restrições à ética democrática, pois enxergava nela uma mistura de demagogia, mentira e belicismo. Mas também não gostava de ditadores. Formulou assim a famosa máxima: "A República funcionará bem se os filósofos tomarem o poder - ou se o governador se tornar um filósofo". A partir daí, a tentativa de fazer do ditador um filósofo passou a ser recorrente na história. Platão tentou a sorte com Dionísio de Siracusa. Acabou na prisão. Aristóteles foi o preceptor de Alexandre. Teve de fugir de Atenas. Mas o fracasso maior foi para a conta de Sêneca, outro grande filósofo da Antiguidade. Ele buscou domar Nero, talvez o mais tirânico dos imperadores romanos, com sua sabedoria, seu cosmopolitismo e sua crença na igualdade dos homens. Nero entrou para a história por sua loucura que teria feito arder Roma. E Sêneca, por ordens do tirano, foi obrigado a se matar.
Foi o capitalismo que fez subir às alturas o papel dos homens de cultura, escritores incluídos. Nos últimos 200 anos, diversos fenômenos - urbanização, industrialização, massificação da informação - conspiraram para o surgimento de uma classe de intelectuais. Não é que eles não existissem antes. Segundo o historiador francês Jacques Le Goff, a Idade Média já os conhecia. Mas pode-se dizer que foi no século 19 que eles se constituíram como "classe social" na Europa. É dessa época o mito do intelectual como alguém acima da sociedade e de alguma forma responsável por iluminar o futuro. Contribuiu para isso a enorme repercussão do caso Dreyfus, que envolveu o escritor francês Émile Zola. Em seu famoso artigo J'accuse, de 1898, o autor de Germinal fez uma violenta acusação de antissemitismo ao governo francês em relação ao oficial do Exército Alfred Dreyfus, injustamente tido como traidor. Zola conseguiu, usando apenas sua escrita em um jornal, provocar uma total reviravolta no caso e deixar em má situação a elite do poder na França. Virou um paradigma de pensador livre das amarras do poder.
O renovado poder dos intelectuais não passou despercebido dos poderosos. Não são apenas os escritores que querem um ditador para chamar de seu - também os ditadores adoram ter os escritores por perto. Eles podem ser determinantes na produção do poder ideológico. Segundo o filósofo italiano Norberto Bobbio, é um poder que se exerce "não sobre a posse de bens materiais, mas sobre as mentes pela produção e transmissão de ideias, de símbolos, de visões de mundo, de ensinamento prático, mediante o uso das palavras". Nenhum ditador, por mais poderoso, pode se manter indefinidamente só pela força bruta. É preciso cativar corações e mentes. Não estranha que escritores sejam particularmente interessantes aos governantes, dada sua capacidade de se comunicar com o grande público. Mas não os da mesma estirpe de Zola, claro. Os ditadores preferem aqueles que abracem a causa e sejam fiéis a ela.
A QUESTÃO PARTIDÁRIA
Cabe aqui a importante distinção entre duas categorias de intelectuais feita pelo escritor Jean-Paul Sartre - o filósofo e o ideólogo. O primeiro seria, na tradição de Sócrates e Zola, o pensador sem limites. O segundo apenas repetiria as palavras de ordem dos poderosos. É contra essa categoria de intelectual que se insurge o pensador francês Julien Benda no livro A Traição dos Intelectuais (1927), que se tornou um clássico. Segundo Benda - também ele um defensor de Dreyfus -, os intelectuais se perderam ao abandonar os princípios universais de justiça e verdade em nome de causas específicas de uma determinada facção.
Infelizmente, muitos se desviaram desse papel. No caso brasileiro, um de nossos escritores de maior sucesso no século 20, Jorge Amado, foi durante anos um ardoroso defensor de Josef Stalin, que disputa com Hitler e Mao Tsé-Tung uma espécie de liga especial dos ditadores mais sangrentos da história. Seu livro O Mundo da Paz (1951) é uma verdadeira ode ao stalinismo, com frases como: "Mestre, guia e pai, o maior cientista do mundo de hoje, o maior estadista, o maior general, aquilo que de melhor a humanidade produziu. Sim, eles caluniam, insultam e rangem os dentes. Mas até Stálin se eleva o amor de milhões, de dezenas e centenas de milhões de seres humanos". Um texto digno de alguém que havia se filiado ao Partido Comunista e considerava a União Soviética o paradigma de sociedade perfeita. Mais tarde, em meados dos anos 50, Jorge Amado iria abandonar - felizmente - a temática política e produzir alguns de seus melhores livros.
A figura do intelectual do partido, aliás, é determinante para entender o século passado - e, de certa forma, as heranças que ainda carregamos. O marxismo elevou ao máximo a importância dos intelectuais na definição dos rumos da humanidade. Líder da revolução russa de 1917, Vladimir Lenin foi categórico ao afirmar que, por razões puramente econômicas, o capitalismo tenderia a durar indefinidamente. Não haveria nenhum limite físico à sua expansão. Para Lenin, somente a prática revolucionária poderia criar esse limite. Daí a importância da classe intelectual, que despertaria a sociedade para os novos tempos. Conhecemos o fim dessa história. Mas, nas longas décadas que durou o sonho, os homens de cultura de esquerda foram alçados a um patamar inédito de importância. Não mais seriam responsáveis por ensinar um ou outro governante, como tentaram os filósofos do passado. Agora trariam a chave para a felicidade humana. Nas palavras do sociólogo francês Raymond Aron, Karl Marx virou o ópio dos intelectuais.
Quem mais se aprofundou no papel da nova classe - a dos pensadores - foi o cientista político italiano Antonio Gramsci. É dele outra distinção clássica, a que separa intelectuais orgânicos dos tradicionais. Os tradicionais seriam o que normalmente associamos à palavra: um grupo que tem como objeto as ideias e que atua de forma separada do restante da sociedade. Já os primeiros são aqueles formados organicamente em cada classe social. E têm a função de trabalhar para a construção do partido (o "novo príncipe") e da revolução. A visão gramsciana exacerba o papel de escritores e pensadores na busca da utopia marxista. Uma utopia perigosa, aliás - que consumiu algumas das melhores cabeças e que, em nome de um suposto bem comum, custou dezenas de milhões de vidas. Cabe lembrar que, etimologicamente, a palavra utopia significa "lugar que não existe". Da visão original de Thomas Morus, sobre a ilha onde viveria a sociedade perfeita, ao marxismo persiste a noção de um ideal muito acima da capacidade humana. É um mundo que existe apenas na cabeça... dos intelectuais!
Talvez uma maneira de entender o problema à frente dos homens de letras seja a polêmica envolvendo os gigantes do renascimento italiano, Michelangelo e Leonardo da Vinci. O primeiro reprimia Leonardo por sua indiferença com as desventuras de Florença; o segundo respondia que o estudo da beleza preenchia todo o seu coração. São duas visões de mundo. Gabo deveria limitar-se à sua obra literária? Ou, ao contrário, deveria usar a sua popularidade em favor daquilo que lhe parece melhor? É uma questão que continua em aberto. As duas posturas parecem legítimas, mas apoiar líderes que tentam ceifar a liberdade é algo que não é mais aceito sem reservas. Daí o desembarque de Saramago e outros da canoa cubana. A hora parece ser não dos seguidores de Marx e Lenin mas, espera-se, de John Stuart Mill, Alexis de Tocqueville e outros pilares do pensamento liberal e da democracia. Na América Latina, ainda temos líderes como Hugo Chávez, Evo Morales, Néstor Kirchner e outros empenhados na construção de Macondos continente afora. Eles hoje encontram, no entanto, dificuldades para laçar escritores que os bajulem e legitimem. García Márquez, felizmente, converteu-se de regra em exceção.
André Lahóz é redator-chefe da revista Exame.
Gabriel Garcia Márquez - Gentil, Mas Sóbrio
García Márquez diz que todo mundo deveria ter um biógrafo inglês. O que coube a ele tenta ser sempre favorável, mas não omite - ainda bem - os fatos embaraçosos
Por Sérgio Rodrigues
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Fidel Castro e Gabriel García Márquez em Havana, Cuba, em 2000. Por conta dessa amizade, o escritor já foi chamado de "lacaio" do ditador cubano
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Sven Creutzmann/ Polaris/ Other Images Fidel Castro e Gabriel García Márquez em Havana, Cuba, em 2000. Por conta dessa amizade, o escritor já foi chamado de "lacaio" do ditador cubano
Pode-se argumentar que, aos 82 anos de idade, a reputação literária do colombiano Gabriel García Márquez está estabelecida. Sua cotação na Bolsa de Valores Literários deverá sofrer oscilações ao longo do tempo, como a de qualquer escritor que não seja simplesmente esquecido, mas poucas vozes - como a do exilado cubano Guillermo Cabrera Infante, um desafeto político morto em 2005 - deram-se ao trabalho de lamentar seu "folclorismo e exotismo realmente desnecessários". Cem Anos de Solidão é um monumento cravado na história da literatura, ponto. E, como seus três ou quatro principais livros depois dele mantêm o sarrafo lá no alto, o solo sob os pés do escritor parece firme. No caso de Gabo, a reputação que falta fixar é a do homem público, a do "político" - papel que o ex-menino pobre e franzino de Aracataca passou a representar de modo praticamente profissional depois de se consolidar como celebridade planetária com o Nobel de literatura de 1982.
Foi essa frente política - ou seriam fundos? - que a crítica internacional atacou com maior apetite em Gabriel García Márquez: Uma Vida, a notável biografia autorizada que o inglês Gerald Martin publicou ano passado, após 17 anos de trabalho, e que chega mês que vem ao Brasil. Não adianta dizer que o homem político interessa pouco, que só se deve julgar um escritor por sua obra: García Márquez se impõe no papel não só por sua estética "terceiro-mundista", influenciadora de gerações de escritores ditos pós-coloniais, mas sobretudo por uma atuação pública de esquerda que sobreviveu à própria ideia de esquerda. Como separar vida e obra de quem prometeu em 1975, após lançar O Outono do Patricarca, que não voltaria a escrever romances enquanto o ditador chileno Augusto Pinochet estivesse no poder - promessa felizmente descumprida?
Admirador de primeira hora de Fidel Castro e seu amigo desde meados dos anos 1970, o escritor ilustre veio a se tornar também seu maior avalista internacional - disparado - à medida que o efeito a longo prazo do bloqueio comercial a Cuba e os novos ares políticos do mundo foram convertendo o ex-líder revolucionário romântico num dinossauro político. Essa amizade custou caro ao conceito de Gabo em certos círculos. Sem esconder sua condição de fã, Gerald Martin encara o tema, mas mesmo assim levou cascudos da maioria dos críticos por se abster de julgar seu personagem, jamais se declarando contra um apoio polêmico que não foi retirado nem quando, no episódio dos fuzilamentos de presos políticos cubanos em 1989 - entre eles um amigo de Gabo, o general Arnaldo Ochoa - o mundo intelectual lhe desabou em cima. O ex-amigo e depois inimigo do peito Mario Vargas Llosa deu-lhe um cruel apelido, que pegou: "Lacaio de Fidel". Natural: será sempre alto - e justo - o preço pago por um artista de peso ao endossar um regime ditatorial que passa sentenças de morte por crimes de opinião. Isso não quer dizer que não haja um tipo de coerência na posição de Gabo - e isso o livro de Martin expõe com clareza, ainda que com economia de adjetivos. Os fatos não são menos eloquentes por serem "autorizados".
A imagem de García Márquez como intelectual público que deles emerge é infinitamente mais complicada que a do escritor consagrado: contraditória, às vezes indefensável e maculada por doses maciças de vaidade e fascínio pelo poder, mas ao mesmo tempo corajosa e com traços de ingenuidade - um escritor, talvez o último de sua linhagem, que sonhou influenciar os rumos da humanidade para além dos livros. Basta levar em conta um mínimo de contexto histórico e cultural para deixar evidente a má vontade da resenha sobre o livro de Gerald Martin que o escritor Paul Berman publicou no jornal The New York Times: "Por que García Márquez escolheu travar tal amizade [com Fidel] é algo que eu não consigo explicar". Quando tenta, Berman só consegue dizer que o escritor "sempre foi fascinado pelo grotesco, pelo patético e pelo improvável." A explicação é outra, claro. Visto por García Márquez - visto, por sua vez, por Martin - Fidel é o maior nome da política latino-americana no século 20, líder de uma revolução que, devido ao bloqueio americano, passou por dificuldades, endurecimentos e erros, mas nada que lhe tirasse o mérito fundamental da auto-afirmação de um continente marcado por séculos de servilismo. Isso é García Márquez puro.
Dickens e Harry Potter
Não se trata de defender sua posição, mas de compreendê-la. Quando narra o famoso caso em que o escritor atuou como guarda-costas de Fidel em visita à Colômbia, em 1994, seu biógrafo não foge da informação e ainda acrescenta ao quadro um detalhe fundamental: ao se prontificar a tomar um tiro no lugar do amigo, o que Gabo expunha, mais do que lealdade cega, era o orgulho de quem se considerava inatingível em sua posição de herói popular - ora, que colombiano arriscaria lhe fazer mal? Com exceção dos trechos em que enaltece os méritos literários do biografado, Martin é um narrador sóbrio, embora nunca menos que gentil com seu personagem. Sóbrio a ponto de, quem sabe a despeito de si mesmo, terminar por ser imparcial. Quando García Márquez brincou que "todo escritor deve ter um biógrafo inglês", talvez não captasse todo o alcance da frase.
Mais embaraçosa sob certos aspectos era sua amizade festiva com Omar Torrijos, ditador populista do Panamá, também detalhada no livro. Desse quebra-cabeça político desponta um García Márquez que, como sua prosa, é mais colorido e barroco do que reto, embora tenda a ser de uma lealdade quase mafiosa a seus amigos - veja-se o modo como se aferrou a Fidel em seus tempos mais difíceis, no momento em que a maré do mundo virava com a ascensão de João Paulo 2º, Margaret Thatcher, Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev. A defesa politicamente incorreta que fez de seu também amigo Bill Clinton no episódio Monica Lewinsky é mais uma confirmação desse estilo.
Personalista e não programático, Gabo cultivou ainda as boas graças de esquerdistas moderados, como o francês François Mitterrand e o espanhol Felipe González - e apoiou até um candidato conservador à presidência da Colômbia, Andrés Pastrana. Em compensação, nunca foi fã de Hugo Chávez, apesar de compartilharem o anti-americanismo. A vaidade transoceânica é a face menos favorável do baixinho Gabo. Fica óbvio o prazer que ele sente no papel de mediador universal: o escritor no labirinto de sua própria influência, sob o peso de uma fama achachapante, brincando de resolver os problemas do mundo.
Esta é a segunda metade do livro, pós-sucesso e pós-Nobel. A primeira, que se lê como um conto de fadas, destrincha a intrincada árvore genealógica que García Márquez se dedicou a espelhar e deformar em suas histórias e o segue passo a passo, quase dia a dia, por meio de uma apuração de rigor maníaco: os primeiros anos de menino praticamente abandonado por pai e mãe, a adolescência entre prostitutas, o horizonte curto de um rapaz pobre perdido na zona bananeira da Colômbia que de repente ganhou uma bolsa de estudos salvadora, virou jornalista e casou-se com seu amor de infância, a discreta Mercedes, com quem teve filhos, correu o mundo e passou por situações de extrema penúria. Até que, em 1967, como se fosse uma pedra filosofal levada a Macondo pelo cigano Melquíades, Cem Anos de Solidão transformou a abóbora em carruagem de ouro. Aqui tem-se a impressão de que Gabriel García Márquez: Uma Vida esgota seu tema - e em certas passagens, reconheça-se, também o leitor. Meticuloso e incansável, Gerald Martin é o tipo de autor que ganha por pontos, mas atravessar suas seis centenas de páginas linha por linha é tarefa recomendada apenas a fãs cascudos.
Uma boa ideia do que foi o impacto de Cem Anos de Solidão pode ser alcançada imaginando-se uma fusão absurda, a de um Charles Dickens moderno com Harry Potter para adultos, temperada por um Jorge Luis Borges que vendesse horrores. Algo que todo mundo era obrigado a ler, que entusiasmava tanto a telefonista do escritório quanto o pós-doutor de Harvard. Nenhum escritor de meio século para cá, talvez mais, chegou perto de operar a mágica desse casamento de alta cultura e cultura de massa com a eficiência de Gabriel García Márquez (talvez Umberto Eco e seu O Nome da Rosa venham em segundo lugar, mas muito longe). Quem, aborrecido com o excesso de informação, resolver zapear o impressionante tijolo de Gerald Martin deve tomar o cuidado de não pular o capítulo 15, com suas 11 páginas comoventes dedicadas ao processo de feitura dessa obra-prima.
Sérgio Rodrigues é jornalista e escritor, autor de Elza, a Garota, entre outros.
O LIVRO
Gabriel García Márquez: Uma Vida, de Gerald Martin. Ediouro, preço a definir.
sábado, 6 de fevereiro de 2010
Don DeLillo troca estilo detalhista e frenético por abordagem íntima ao tratar de conflito no Iraque; livro é engenhoso, mas tem personagens artificiais
Don DeLillo troca estilo detalhista e frenético por abordagem íntima ao tratar de conflito no Iraque; livro é engenhoso, mas tem personagens artificiais MICHIKO KAKUTANI
Richard Elster, o personagem central de "Point Omega" (ponto ômega), a nova novela de Don DeLillo, é um acadêmico que ajudou o Pentágono a conceituar o quadro intelectual em favor da Guerra do Iraque. Está sendo cortejado por um cineasta chamado Finley, que quer fazer um documentário com ele falando sobre a guerra.
Imagine Paul Wolfowitz, Condoleezza Rice e alguns pensadores do American Enterprise Institute colocados num processador de alimentos, juntamente com Robert S. McNamara do jeito como foi visto no filme "Sob a Névoa da Guerra", de Errol Morris.
Como muitos dos livros anteriores de DeLillo, "Omega" trata da morte, do pavor e da paranoia, e, como muitos desses livros, possui uma arquitetura engenhosa que ganha ressonância quando é vista em retrospectiva. Mas mesmo sua engenharia estrutural inteligente não consegue compensar o retrato atipicamente simplista traçado pelo autor de seu protagonista: um intelectual pomposo que emprega argumentos filosóficos abstratos para descaradamente justificar o envio de milhares de jovens soldados para morrer em uma guerra desnecessária, mas que, de repente, conhece em primeira mão o que significam a morte e a perda, quando sua filha amada desaparece de uma hora para outra.
Em lugar da linguagem agitada, informal e soturnamente espirituosa que empregou com efeito tão eletrizante em "Ruído Branco" e "Submundo", desta vez DeLillo optou pela prosa minimalista, esmaecida, quase beckettiana que empregou em sua novela de 2001, "A Artista do Corpo", e em sua peça "The Day Room", de 1987.
E, em lugar das observações elétricas e altamente detalhadas da vida americana que animam "Libra" e "Mao 2º", ele recorreu a reflexões cansativas e carregadas de presságios sobre a mortalidade e o tempo. Fala-se sobre como o tempo é sentido diferentemente no deserto ou na cidade, fala-se sobre a vida versus a arte e a arte versus a realidade, fala-se sobre um "ponto ômega" em que "a mente transcende toda direção interior", seja lá o que isso possa significar.
Discurso cerebral
De tempos em tempos Elster soa como Donald H. Rumsfeld ou George W. Bush, declarando que "uma grande potência precisa agir", que a América precisa "retomar as rédeas do futuro". Mais frequentemente, porém, DeLillo faz o discurso de Elster sobre a guerra ser propositada -e absurdamente- cerebral: ouvimos que ele escreveu um ensaio sobre a palavra "rendition" (um de cujos significados é a transferência forçada de prisioneiros para serem submetidos a interrogatório em outros países), com "referências ao inglês da Idade Média, francês antigo, latim vulgar e outras origens", e o ouvimos falar sobre seu desejo de uma "guerra haiku", que significaria "nada além do que ela é".
Mais tarde, Elster diz que "alguma coisa está vindo", e prossegue: "Mas não é isso o que queremos? Isso não é o ônus da consciência? Estamos esgotados. A matéria quer perder sua consciência de si. Somos a mente e o coração que a matéria se tornara. É hora de fechar tudo. É isso o que nos move agora".
Os três personagens centrais do romance -Elster, sua filha, Jessie, e o cineasta Finley- são pessoas alienadas, estranhamente desapegadas. São indivíduos que vivem em um estado de limbo, buscando algo que possa dar ordem ou sentido a suas vidas, ou então simplesmente em estado de choque devido ao caráter aleatório e ameaçador da vida moderna.
Personagens irreais
É claro que muitos personagens anteriores de DeLillo compartilham essas características afásicas, mas há algo de desencarnado e genérico nestes três. É difícil acreditar que Elster algum dia foi chamado pelo governo para dar consultoria sobre a Guerra do Iraque, assim como é difícil acreditar que Finley seja de fato um cineasta ou que Jessie faça trabalho voluntário com idosos. Eles mais parecem hologramas que seres humanos.
Após seu período trabalhando para o governo, Elster se isolou em uma casa no deserto "para não fazer nada" exceto ficar sentado e pensar. Ele diz que está lá "para parar de falar". O que ele sente lá "é o tempo envelhecendo devagar. Ficando tremendamente velho. Não a cada dia que passa. Este é um tempo profundo, um tempo que marca época".
Finley foi a esse retiro no deserto para tentar persuadir Elster a estrelar seu filme: o documentário mostrará esse homem em processo de envelhecimento falando sobre a guerra, sobre o período que passou no governo e sobre qualquer outra coisa que quiser falar.
Em Nova York, Finley certa vez apresentou Elster a um filme chamado "24 Hour Psycho", exibido no Museu de Arte Moderna: uma obra de arte conceitual de Douglas Gordon, mostrando o filme de Hitchcock em câmera tão lenta que leva 24 horas para ser exibido. A obra levanta alguns dos mesmos temas que DeLillo parece querer explorar nas páginas do livro -realidade e percepção, identidade e embuste.
É a mesma obra à qual Jessie (e possivelmente, também, um homem que vem seguindo Jessie) assistiu, devido ao desejo de ver um filme em que, nas palavras dela, "nada acontece" parece ser a questão principal. Jessie é uma jovem estranha, com tendência a mergulhar em estados de espírito nos quais "ela parecia estar amortecida para qualquer coisa que pudesse provocar uma reação".
"Seu olhar tinha uma qualidade resumida, ele não alcançava a parede ou a janela", diz Finley. "Achei perturbador observá-la, sabendo que ela não se sentia observada." A mãe de Jessie -a esposa de quem Elster está separado- a enviou para o deserto para afastá-la de um homem que ela conhecera em Nova York.
Embora a chegada de Jessie modifique ligeiramente a dinâmica entre Elster e Finley, pouca coisa acontece por vários dias. Os três ficam sentados, juntos ou separados. Eles comem sanduíches e falam em sair em expedição à procura de carneiros selvagens.
Finley tece fantasias sobre fazer sexo com Jessie; ele pede a ela que se sente com ele e pega em sua mão, mas ela "não dá sinal algum de ter notado". E então, um dia, quando Elster e Finley retornam de fazer compras de comida, a casa está vazia: Jessie desapareceu, não é encontrada em lugar algum.
América estilizada
Embora DeLillo extraia suspense considerável de sua história, erguendo um clima de medo digno de Pinter, há algo de sufocante e sem ar na produção inteira. Diferentemente das pessoas de seus romances mais memoráveis, os três personagens deste livro não vivem em uma América reconhecível ou uma realidade reconhecível.
Eles dão a impressão de serem papéis escritos para uma peça de teatro estilizada e altamente artificial: Elster, um tigre de papel que é preparado para ser derrubado do pedestal; Finley, seu interlocutor, um perdedor esquecível, e Jessie, a vítima que lembra uma sílfide e cujo desaparecimento vai ensinar uma lição a seu pai. São papéis que precisam desesperadamente de atores que lhes deem substância e vida.
Tradução de Clara Allain
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sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
Hans Ulrich Obrist - O Todo Poderoso
O suíço Hans Ulrich Obrist foi eleito pela revista inglesa "Art Review" o nome mais influente do mundo da arte em 2009. O fato ilustra como os curadores são importantes hoje - tanto quanto os críticos ou os próprios criadores
Por Marianne Piemonte, de Londres
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Dayanita Singh/Courtesy the artist and Frith Street Gallery, London/© 2008 Dayanita Singh
O CURADOR...
O suíço Hans Ulrich Obrist. Participar de uma exposição dele é uma honra para o artista
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Dayanita Singh/Courtesy the artist and Frith Street Gallery, London/© 2008 Dayanita Singh O CURADOR...
O suíço Hans Ulrich Obrist. Participar de uma exposição dele é uma honra para o artista
Em 1999, o curador suíço Hans Ulrich Obrist, famoso por assinar exposições nada convencionais - em quarto de hotel e biblioteca, por exemplo -, resolveu aproximar a arte da ciência. Durante a temporada de Laboratorium, a cidade da Antuérpia, na Bélgica, virou mesmo um grande laboratório. Convidada para a experiência, a artista alemã Rosemarie Trockel criou a sua versão de uma sala para estudo do sono. O lituano Jonas Mekas fez um filme em que revisitava a lendária Factory, como era chamado o estúdio de Andy Warhol (1928-1987). Foi um período em que artistas e cientistas puderam conversar sobre suas visões de mundo, tudo devidamente documentado e divulgado. Obrist já era bastante conhecido na época justamente por não se conformar em manter a arte restrita ao ambiente das galerias e museus. Mas seria ainda mais.
Hoje, aos 41 anos, o co-diretor e curador da Serpentine Gallery, em Londres, acaba de receber o título de pessoa mais poderosa do mundo da arte pela respeitada revista inglesa Art Review. Pela primeira vez, na oitava edição da lista anual, um curador ocupa o primeiro lugar. Sinal dos tempos. No princípio, eram os artistas - e do contato direto deles com seus mecenas e o público resultava o valor e a relevância de uma obra. Num segundo momento, entraram os críticos. Em seu livro A Palavra Pintada, publicado nos anos 70, o jornalista americano Tom Wolfe mostrou como eles se tornaram relevantes num mundo em que a arte necessitava de "legenda" - nas palavras de Wolfe - para ser entendida. Segundo ele, artistas como Jackson Pollock (1912-1956) inclusive adaptaram seu processo criativo às teorias que críticos influentes, como Clement Greenberg, defendiam. Agora, chegou a era dos curadores. E por que eles são tão importantes?
Em primeiro lugar, porque hoje eles não se limitam a organizar exposições e escrever seus catálogos, como faziam no passado. Por meio das coletivas que montam, expressam suas opiniões sobre a arte contemporânea. Em 2002, por exemplo, Obrist lançou a exposição on-line Do It (Faça Isto). Dela participaram veteranos da arte conceitual, como o americano John Baldessari, e nomes de fora do eixo Londres-Nova York, caso da palestina Mona Hatoum e de Pépon Osorio, porto-riquenho conhecido pelas instalações em grande escala. A idéia do curador era permitir que os próprios espectadores fizessem arte, seguindo as instruções detalhadas dos autores das peças. Durante a temporada, ele gerenciou um blog em que publicava diariamente as alterações sugeridas pelo público, deixando claro o sonho de proporcionar um campo expandido para a arte.
O segundo motivo é que, por exercerem essa função criativa, os curadores ganharam prestígio. Assim, passa a ser uma honra para um artista - e fator de valorização - participar de uma mostra assinada por uma grife como Obrist. O poderoso curador, que já esteve à frente de cerca de 200 exposições, não tem problemas em conseguir um grande nome para um evento seu. O pintor alemão Gerhard Richter e o polonês Gustav Metzger, famoso por sua arte política, já produziram obras especialmente para coletivas promovidas por ele. Aliás, isso ocorreu desde o início. A primeira mostra de Obrist foi feita quando ele tinha 23 anos, na cozinha de sua casa em Zurique, e chamou-se World Soup (Sopa do Mundo). Na seleção, que ficou em cartaz durante três meses e recebeu exatas 29 visitas, havia trabalhos do inglês Richard Wentworth, que hoje leciona na Escola de Desenho e Artes Ruskin, em Oxford, e do escultor e fotógrafo francês Christian Boltanski.
Cappuccino de caramelo
Obrist coloca até hoje a coletiva em sua cozinha entre as preferidas. Sempre vestindo ternos em tons de cinza e azul, ele fala muito rápido, em um inglês com forte sotaque alemão e que ainda mistura palavras em francês. É um suíço que gesticula as mãos como um italiano e sempre pontua uma frase com uma citação de um filósofo ou de um artista. Enquanto conversa, ele rabisca pequenas ilhas sobre papéis e esses desenhos parecem ajudá-lo a encadear os pensamentos. Em sua mesa, pilhas de livros, ilustrações e jornais de diferentes países dividem espaço com o laptop, o BlackBerry e uma xícara gigante de cappuccino de caramelo com creme da rede americana Starbucks.
Obrist gosta de fazer experiências com o tempo. No começo dos anos 90, dormia apenas duas horas por dia e tomava muito café, seguindo o esquema criado pelo escritor francês Honoré de Balzac (1799-1850). Mais tarde, já no final dos anos 90, tentou o modelo proposto pelo renascentista italiano Leonardo da Vinci (1452-1519). Passou a trabalhar por três horas e dormir 15 minutos. "Funcionou bem por mais de dois anos. Foi quando transcrevi boa parte das minhas entrevistas com artistas e os transformei em livros", conta (Entrevistas Vol. 1 e Vol. 2 saíram no Brasil pela editora Cobogó). Mas a rotina provou-se inviável e anti-social quando Obrist virou o curador do Musée d'Art Moderne de La Ville, em Paris, em 2000.
Desde que aceitou o convite para trabalhar na Serpentine Gallery, em abril de 2006, uma galeria pública e de acesso gratuito em Londres, Obrist diz que está mais "sedentário". Dá expediente na galeria, vai sempre à abertura de exibições de outras galerias e, de sexta a segunda, sai de Londres em busca de novos artistas. Faz questão de fugir do Natal viajando para países que não celebram a data. No ano passado, ele visitou Teerã. "Acho um desperdício parar esses dias. Em 2008, descobri muita gente interessante no Cairo", diz Obrist, que afirma não tirar férias desde 1999 e folgar só no primeiro dia do ano.
Para dar uma movimentada nessa vida "quase tranquila", Obrist inventou as Maratonas Culturais na Serpentine. São duas rodadas de 12 horas, realizadas quatro vezes por ano, em que artistas, poetas, escritores e jornalistas participam com idéias. Catalogadas em um dossiê intitulado Idéias Possíveis, o curador suíço pretende colocá-las em prática no futuro. Há também o Brutally Early Club (Clube Brutalmente Cedo), reuniões em torno de temas como filosofia e arte que acontecem pontualmente às 6h30 da manhã. A modelo Kate Moss, o artista Damien Hirst - número um da lista da Art Review em 2008 -, o escritor Tom McCarthy e o arquiteto Markus Miessen aparecem com frequência. Para quem duvida que Obrist consiga angariar convidados nesse horário, ele pega um cartão e carimba com força: "Você está brutalmente convidado". Só fica então espaço para outra dúvida: quem se atreveria a faltar a um encontro com o todo poderoso da arte?
Brasil e Bienal
O Brasil está no roteiro de viagens do curador neste ano. Além de entrevistas com os músicos Tom Zé e João Gilberto e com o dramaturgo José Celso Martinez Corrêa, o admirador confesso da artista Lygia Pape (1927-2004) pretende visitar ateliês de jovens promessas. Obrist gostou muito da Bienal de São Paulo de 1998, que tinha como tema a Antropofagia, mas critica esse modelo de exposição: "Precisamos de uma nova bienal", diz. Segundo Obrist, hoje há cerca de 150 bienais pelo mundo e cada vez mais elas "se espelham nelas mesmas". O curador teme ainda os eventos assim tão esporádicos: "É como se a arte só acontecesse nos períodos de bienais e depois houvesse um imenso deserto". Ele acredita em ações contínuas e atividades mais "holísticas", que unam diversas áreas.
O homem mais importante do mundo da arte enxerga possibilidades de trabalho em praticamente tudo ao redor: "Hoje se pode fazer curadoria de arquitetura, música, revistas ou tudo isso misturado. O mundo todo pode receber curadoria", diz Obrist que, no entanto, garante não ter se deixado seduzir com o topo do ranking da Art Review: "Eu estava trabalhando quando vi a notícia no meu telefone e continuei a trabalhar".
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Marianne Piemonte é jornalista.
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