domingo, 29 de maio de 2011

A Nova expressão do romance americano





Jonathan Franzen, autor de Liberdade, explica o seu território literário preferido, o Meio-Oeste dos EUA, fala do uso de diferentes pontos de vista em sua ficção e defende o hábito da leitura diante do avanço da web

Lúcia Guimarães - O Estado de S.Paulo

O endereço foi uma surpresa. Como o mais celebrado romancista americano de sua geração foi parar num prédio do Upper East Side, na esquina da Avenida Lexington? Longe dos restaurantes onde seus pares discutem e bebem? Não demorei a descobrir. O homem alto, que, havia pouco, me recebera na entrada do apartamento pisando o chão só de meias, se desmanchou num sorriso de gratidão quando, ao notar seu par de sapatos na porta, ofereci para tirar os meus também. Pergunto a Jonathan Franzen se lhe incomodam os modismos. A resposta: "Há algo menos cool do que o meu endereço em Manhattan?". Sou obrigada a concordar, tendo fugido da mesma rua tão logo deixei de depender da proximidade de uma certa escola de primeiro grau.





Veja também:

Leia o início de 'Liberdade' e compare com o romance anterior de Jonathan Franzen, 'As Correções'



Franzen, 51 anos, tem o olhar preocupado de quem se tornou o alvo de, nas suas palavras, uma carga de tijolos de louvor. Seu quarto romance, Liberdade, que chega ao Brasil - ele não virá lançá-lo aqui, mas garante presença na Flip de 2012 -, faz tanto sucesso dos dois lados do Atlântico que o autor já espera "pagar caro por isso" quando começar o próximo. Em tempo: o próximo livro de Franzen, Masafuera, não é um romance, é uma coleção de ensaios e já está a salvo de sua angústia, na editora.



Desde que Liberdade foi lançado nos Estados Unidos, em 2010, Franzen cumpriu uma turnê publicitária condizente com um astro das letras. Quem acompanhou seu esforço para sobreviver ao sucesso estrondoso de As Correções, em 2001, sucedido pelo apropriadamente intitulado livro de memórias A Zona do Desconforto, não deixa de notar um homem conformado com a fama que, ele admite, transformou sua vida.



Mas, além de uma ida à pedicure antes de se dirigir a seu apartamento, recomendo aos futuros visitantes atenção esmerada com as palavras. Como um artesão da escrita, ele monitora cada uma emitida na sua presença e sua reticência em busca do nirvana semântico pode abrir um intervalo de 10 segundos entre um sujeito e um predicado. Ao lembrar a Franzen que já nos encontramos outro dia, brevemente, ele enfatiza: "Sim, brevemente". Ao pedir para que diga uma segunda vez para a gravação a resposta sobre os muitos significados da "liberdade" do título de seu romance, sou comunicada de que essa foi a minha pergunta "menos favorita". Mas eu logo me lembraria que estava diante de um cavalheiro do Meio-Oeste que detesta ser indagado sobre o que isso quer dizer. Numa gentileza típica de Midwesterners, ele oferece a explicação. Mais do que isso, não deixa uma pergunta da entrevista a seguir sem resposta. Tijolos, afinal, servem para construir alguma coisa.



O seu romance, apesar de seguir a história de uma família por 30 anos, é rico em fatos da última década. Houve um momento específico em que a política americana foi decisiva para dar a partida da trama?



Sim, houve vários momentos. Provavelmente a decisão de invadir o Iraque, acima de tudo. O problema é que, toda vez que eu queria decolar, com um tema político, eu ficava paralisado pela minha própria raiva, pelo meu próprio partidarismo, como um democrata de esquerda. Não conseguia me separar das minhas convicções e a minha angústia como um americano por causa do que o governo estava fazendo. Então, não me parece acidental o fato de ter começado a escrever uma semana antes de Obama ser eleito, quando ficou claro que ele ia ganhar. Algo me fez relaxar e consegui me despreocupar de questões políticas e retornar ao trabalho de criar histórias complicadas e ambíguas. Até aquele momento, o que eu já tinha como trama era apenas a família da protagonista Patty e sua má experiência com o liberalismo americano. Eu tentava, há tempos, distribuir igualmente as ofensas à esquerda e à direita, mas só quando percebi que Bush ia embora me pareceu OK passar um ano escrevendo um romance.



O que é o seu Meio-Oeste, um elemento psicológico tão importante da sua ficção?



Eu acho que o Meio-Oeste não é um lugar, é uma síntese. As pessoas se identificam como midwesterners e têm algo em mente quando dizem isso. Se você mora na Califórnia ou em Nova York, também quer dizer algo quando se refere ao Meio-Oeste. Mas não tenho certeza se há um conjunto de características do Midwesterner que não são compartilhadas em outros locais do país. Pode ser um termo sem significado.



Mas por que você diz que por um lado é um "bom rapaz do Meio-Oeste"?



É quase uma redundância; se refere à ideia de que as pessoas nas costas Leste e Oeste são agressivas. O estereótipo do Midwesterner é extremamente bonzinho.



E não gosta de pretensão...



Isso mesmo, é despretensioso. Acho que podemos argumentar que F. Scott Fitzgerald e Sinclair Lewis inventaram o Meio-Oeste e o fizeram como pessoas que deixaram o lugar. Então, o Meio-Oeste parece se revelar só quando você vai embora. Hemingway foi embora, Kurt Vonnegut também. E o David Foster Wallace - todo mundo vai embora. E aí você percebe que vê as costas com um olhar diferente de quem cresceu lá e, desta posição, começa a argumentar que há algo sobre o Meio-Oeste.



Por que você gosta de usar múltiplos pontos de vista na sua narração?



Isso é muito natural para mim. Eu cresci numa casa com quatro vozes muito fortes. E cada uma muito diferente e todas em conflito entre elas. E todos falavam comigo, me incluíam na sua versão da história da família. Mas as versões estavam em grande conflito. Então acho que cresci, como o caçula, aprendendo a falar quatro línguas diferentes, olhando o mundo com quatro perspectivas diferentes. Seria difícil para mim um romance numa só voz narrativa.



Você comentou que cresceu como uma criança num mundo de adultos. Hoje, a cultura corteja segmentos jovens como se ser criança ou adolescente fossem um objetivo e não uma etapa do crescimento. Em Liberdade, nós vemos adultos se comportando como crianças e seus filhos tendo que amadurecer para compensar. Foi a sua experiência pessoal?



Eu pude observar isso. Há várias coisas. Os anos 60 inventaram a juventude e fizeram dela um território de acontecimentos na cultura. Foi algo liderado pela indústria da publicidade e muito útil para uma sociedade de consumo que gosta de transformar as pessoas em adolescentes eternos. Então, você começa por antecipar a adolescência - crianças de 8 anos já têm que se preocupar se usam roupas cool, com os aparelhos que têm que comprar e, no outro extremo, não termina aos 20 anos, vai continuando até os 65! Foi um fenômeno inventado pelos baby boomers. Há essa anulação da diferença de idade que, quando eu crescia, ainda era crucial. Eu não gostava especialmente de ser criança, queria me tornar adulto logo, mas desfrutava dos privilégios de ser criança. E me sentia grato porque meus pais faziam seu papel de adultos. Essa falta de distinção entre o que é ser adulto e ser criança na cultura me assusta.



A personagem Patty, a certa altura, critica a geração do filho, diz como deve ser difícil, por um momento, ter que sair do seu próprio mundo de fones de ouvido e gadgets pessoais. Muitos perguntam se o maciço assalto aos sentidos vai afetar o hábito da leitura solitária, que exige do leitor se desligar da internet e dos aparelhos.



Acho que ainda há muitos leitores. A minha visão é quase oposta. Muitas pessoas estão oprimidas por este mundo virtual e pelo bombardeio de comunicações. Nem todos, é claro. À medida que aumenta a diferença entre ler um livro e as outras experiências de hoje, o livro emerge como uma alternativa real e deve ser mais atraente por causa disso. É um refúgio. Num bom romance, você consegue se reconhecer e pensar: "Eu poderia estar nessa situação". Não é uma confusão de identidade, mas uma alternativa. Escrever e ler um romance tem muito a ver com uma perda voluntária do eu - o oposto de se sentir no centro do mundo virtual.



Quando o personagem músico Richard Katz dá uma entrevista sarcástica para o estudante adolescente sobre a canção avulsa em mp3, isso reflete o que você vê acontecendo com a música?



Ah, sim. A música está num lugar ruim, acho. O arquivo mp3 transformou completamente o uso cultural da música. E fez dela uma espécie de goma de mascar e também um tipo de droga, muito longe de uma experiência singular e coerente. Quem ouve um álbum completo hoje em dia? E quem grava um bom álbum completo? Poucos.



Mas exatamente porque os músicos não conseguem sobreviver com gravações, eles estão em tours constante - há muito mais música ao vivo.



Eu sei disso. Pode ser uma coisa boa. Mas é como dizer que há mais bares para tomar café. Eu não acho que a música ao vivo seja uma atividade que carregue significância. Você pode desfrutar dela. O que estou dizendo pode ser anátema para um público brasileiro. Porém não há conteúdo. É um prazer, mas, e daí? Quando você vê um músico que um dia respeitou tendo sua obra como trilha de comerciais para produtos deploráveis, você percebe que a música não tem centro moral e não tem mais conteúdo intelectual. É pura diversão.



Quando o jovem personagem Joey enfrenta dificuldades e se vê sozinho, ele pensa que deve satisfações ao seu pai "severo e com princípios". O que há de especial na necessidade de um filho ser aceito pelo pai - algo que me parece ser um elemento essencial do seu romance?



No meu caso não foi assim, o meu pai me aceitava. Ele era severo, duro, assustador. Minha mãe era bem mais militante na sua desaprovação. Ele era rígido, mas doce. O problema que você cita era mais o caso de um dos meus irmãos. Há um tipo de história que vai sempre me fazer chorar - qualquer história sobre um pai e um filho superando uma separação por desavença.



Por quê?



Bem, não queremos traficar estereótipos entre os sexos....



Fique à vontade, nós brasileiros temos tolerância alta para o politicamente incorreto.



Tradicionalmente, o esforço de construir redes de relacionamento é deixado com as mulheres, e tradicionalmente, os homens vão à luta para se definir por conta própria. Não sei se deve ser ou tem que ser assim, no entanto você olha para as outras espécies e, geralmente, as fêmeas estão organizando o lar e os machos estão por aí lutando uns com os outros. Pode chamar de conflito edipiano, não importa, o filho sempre está lutando por um certo espaço. E, por causa dessa história de conflito entre pais e filhos, eu fico muito emocionado quando eles superam isso.



Você já se referiu aos seus dois primeiros romances, The 27th City e Strong Motion como produtos de um período da sua vida em que queria a todo custo impedir qualquer risco de sentimentalismo na escrita. E que, com a doença e morte do seu pai, ao escrever As Correções, queria experimentar a perda de controle.



Eu ainda me preocupo em evitar o sentimentalismo - que é diferente de sentimento, claro. Sim, havia muita ironia e sátira nos dois primeiros livros. E me remete ao que acabamos de mencionar. Meu pai era esta presença masculina tão contida e inteligente e eu, o menino da família, queria me afirmar intelectualmente através do meu trabalho, ser invulnerável a qualquer ataque emocional. À medida que nos tornamos mais velhos, podemos assumir mais riscos.







sexta-feira, 27 de maio de 2011




Jonathan Franzen confirmou presença em na FLIP .
Um dos escritores americanos  mais festejados dessa decada tem seu mais recente livro " Liberdade" lançado  no Brasil

ABAIXO COPIO as ediçoes de HOJE do O GLOBO e FOLHA de S.PAULO sobre o escritor.



Houve um momento na carreira de Jonathan Franzen em que ele teve o pressentimento, raro para a maioria dos escritores contemporâneos, de que sua obra estava prestes a alcançar aquela entidade insondável que se costuma chamar de “o grande público”. Após escrever narrativas experimentais nos anos 1980 e 1990, ele trabalhava no romance “As correções”, uma saga familiar que, ao ser lançada, em 2001, recebeu atenção surpreendente para uma época em que se costuma decretar a decadência da literatura como gênero de massas. A princípio, Franzen pareceu desconfortável: naquele ano, rejeitou um convite para o clube de leitura da apresentadora de TV Oprah Winfrey, guardiã do gosto médio americano, por receio de vulgarizar sua obra.



Uma década depois, porém, o autor está mais à vontade no papel. Nos últimos meses, sentou no antes temido sofá de Oprah, concedeu centenas de entrevistas e posou para a capa da revista “Time”, com ar sisudo e olhar pensativo, ao lado do título de “Grande Romancista Americano”. Tudo para promover seu novo livro, “Liberdade” (que chega agora ao Brasil pela Companhia das Letras, em tradução de Sergio Flaksman) e, ao mesmo tempo, defender junto ao grande público sua maior causa: a relevância da literatura na cultura contemporânea.



— Enquanto eu escrevia “As correções”, me dei conta de que aquele era um livro ao qual as pessoas poderiam realmente prestar atenção. Foi um momento assustador, porque você tem que refletir se está disposto a isso, e a tudo de negativo que pode trazer. Mas, além do óbvio prazer de ser lido, vejo isso como um serviço. Acredito que, para sobreviver como gênero, o romance precisa receber atenção significativa da cultura mainstream. Caso contrário, o grande público pode simplesmente se esquecer dele — diz Franzen em entrevista ao GLOBO, por telefone, de Nova York.



Assim como em “As correções”, a trama de “Liberdade” se concentra num pequeno núcleo — no primeiro caso a família Lambert, agora a família Berglund — no qual se condensam experiências coletivas da sociedade americana (leia resenha ao lado). Mais do que apresentar um painel sociopolítico de seu país em forma de ficção, a ambição de Franzen é provar que há algo de específico na literatura que a torna um meio ideal para promover a reflexão pessoal sobre dilemas individuais e coletivos de nosso tempo. Essa ambição, como foi notado pelos críticos, aproxima Franzen dos escritores realistas do século XIX, como Tolstói e Dickens, que acreditavam no romance como espaço de discussão sobre a sociedade. Ao mesmo tempo em que encoraja a comparação (Tolstói chega a ser citado em “Liberdade”), o autor tenta matizá-la.



— Escritores como Dickens faziam relatórios sobre a sociedade, e não é isso que tenho em mente. O que um romance pode fazer é criar um diálogo entre o mundo como um todo e uma consciência individual. Não há outra forma capaz de fazer isso como o romance. É algo intrínseco à experiência da leitura, ao ato de decodificar marcas numa página e criar um mundo a partir da palavra impressa.



Apesar de dizer que não tentou fazer, em “Liberdade”, um “relatório social” à moda de Dickens, Franzen tem sido saudado nos Estados Unidos, desde o lançamento do livro, pela capacidade de criar “um retrato incisivo do nosso tempo”, como resumiu o jornal “The New York Times”. Para o escritor, essa é uma reação ao fato de o romance — não só o dele, mas todo o gênero — processar a experiência coletiva de uma forma diferente daquela à qual o público está acostumado no dia a dia.



— Estamos afogados em relatórios e notícias sobre nós mesmos. Com os canais de jornalismo 24 horas e a internet, não precisamos de ainda mais informação sobre nossa sociedade. Mas o romance, por existir num tempo mais lento do que o jornalismo, é capaz de isolar todo esse ruído e dar atenção às coisas que realmente importam, aquelas que não estão sendo noticiadas — diz o escritor.



A dificuldade de comunicação numa sociedade saturada de informação sobre si mesma é um dos temas de “Liberdade”, que investiga as cisões políticas e sociais vividas pelos Estados Unidos durante o governo de George W. Bush. Franzen enxerga no presidente Barack Obama, fã confesso $seu livro, alguém que tem se esforçado para superar a “gritaria polarizada” que tomou conta da política nacional nos últimos anos.



— Penso que Obama sente que, ao se comportar assim, os políticos e jornalistas americanos estão cometendo uma violência contra a verdade. Porque a verdade é complicada, mas o que vemos na TV e na internet é uma versão simplificada de tudo, com essas pessoas gritando suas opiniões sem se preocupar em ouvir os outros.



Franzen diz escrever em busca de leitores que não se satisfazem com verdades simplificadas. Um autor que procura conservar espaço para a literatura nas estantes de best-seller, ele descreve o leitor ideal como alguém que “anda por aí sentindo que todo mundo parece saber o que fazer, menos ele, que todos estão seguros enquanto ele está cheio de conflitos, e que ninguém parece incomodado com as coisas que o incomodam”.



— É encorajador acreditar que ainda há lugar no mundo para o romance, porque bons livros continuam a ser um espaço onde o mundo pode ser discutido em sua complexidade real, com ambiguidade, incerteza e humildade.



Receba este blog Permalink.Envie.Compartilhe ...Comente Ler comentários (0) ....Enviado por Guilherme Freitas - 27.5.2011
0h05m.

A amizade literária de Jonathan Franzen e David Foster Wallace

Num longo ensaio publicado em abril na revista "The New Yorker", Jonathan Franzen escreve sobre a temporada de duas semanas que passou na ilha remota de Masafuera, na costa chilena, no início do ano. Fisica e mentalmente esgotado pela turnê mundial de promoção do romance "Liberdade" (ver post acima), e ainda abalado pelo suicídio de um de seus melhores amigos, o escritor David Foster Wallace, que se enforcou em 2008, Franzen desembarcou na ilhota do Pacífico buscando paz e isolamento. Levava na bagagem um exemplar surrado de "Robinson Crusoe", o romance de Defoe inspirado num aventureiro escocês que teria vivido em Masafuera, e uma urna com cinzas de Wallace para serem jogadas no mar, a pedido da viúva dele. Como se pode imaginar por essa combinação, em vez da tranquila observação de pássaros raros que tinha planejado, Franzen viveu uma experiência catártica, que o confrontou com o luto pela morte do amigo e a solidão do trabalho de todo escritor.



No ensaio, Franzen detalha a importância da amizade com Wallace em sua formação. Os dois começaram a publicar nos anos 80, compartilhavam com frequência debates de "jovens escritores americanos" e trocavam longas cartas sobre as possibilidades da literatura no mundo contemporâneo.



- Passamos muito tempo falando sobre o que fazer da literatura hoje, mas não é apropriado falar em influência de um sobre o outro, era mais uma conversa constante. Chegamos à conclusão de que, num mundo em que as pessoas estão cada vez mais isoladas, a literatura pode ser um meio de estabelecer uma conexão entre as pessoas - diz Franzen ao GLOBO, por telefone, de Nova York.



O escritor refina esse argumento no ensaio da "The New Yorker", explicando que, embora citasse em entrevistas o discurso um tanto batido sobre a "conexão através da literatura", Wallace encenava, em sua obra, a impossibilidade mesma dessa conexão. Para Franzen, a literatura promove uma comunicação paradoxal, baseada na solidão de duas pessoas, uma que escreve e uma que lê.



- Quando leio um livro que significa algo para mim, a sensação que tenho é de um certo conhecimento sendo transmitido, através do tempo ou do espaço. Mas acredito que Dave tinha um senso de isolamento maior do que eu. Escolhi interpretar essa ideia de conexão através de uma comunidade da qual o escritor participa de duas formas, lendo e escrevendo - diz.



Pouco conhecido no Brasil, onde tem apenas um livro publicado ("Breves entrevistas com homens hediondos", Companhia das Letras, tradução de José Rubens Siqueira), Wallace surgiu na cena literária americana nos anos 80, com narrativas experimentais que dialogavam e se confrontavam com a tradição pós-moderna do país, de autores como Thomas Pynchon e John Barth (que Wallace simultaneamente homenageou, desafiou e satirizou na novela "Westward the course of empire takes its way", de 1989).



Em 1996, Wallace publicou "Infinte jest", um romance de mais de mil páginas no qual buscava colocar em prática as teorias que vinha desenvolvendo desde o início da década sobre a fusão entre técnicas narrativas pós-modernas e o humanismo dos autores realistas do século XIX (argumento desenvolvido longamente no ensaio "E unibus pluram", de 1993, que será lançado em português como parte de uma coletânea de não ficção de Wallace a ser publicada pela Companhia das Letras no ano que vem). Um amplo painel sobre a presença invasiva do entretenimento na cultura americana contemporânea, e o tipo particular de solidão que isso engendra, "Infinte jest" se tornou um best-seller inesperado, especialmente por se tratar de uma narrativa tão intricada (quando perguntado sobre isso, Wallace dizia, não totalmente de brincadeira, que determinara a disposição dos capítulos segundo o modelo geométrico do Triângulo de Sierpinski).



Tendo ele próprio flertado com o experimentalismo em suas primeiras narrativas, Franzen diz que a relação com Wallace o levou a buscar um caminho mais convencional em seus livros. Desde "As correções" (2001) e mais ainda com "Liberdade", Franzen abraçou o romance social como forma.



- Dave era um verdadeiro artista experimental. Ele tentava fazer coisas que nunca tinham sido feitas, assumindo o risco de fracassar, o que é parte de ser um artista experimental verdadeiramente honrado. Ter um amigo que trabalhava de forma tão radical me fez reforçar meu compromisso com uma forma narrativa mais convencional. Mas sou escolado em Modernismo e, mesmo que eu goste muito da ficção do século XIX, algo aconteceu no início do século XX, quando os escritores começaram a tomar consciência de aspectos como voz, perspectiva e representação do tempo, e isso não pode ser ignorado. Hoje, tenho um compromisso com uma parte da comunidade de leitores que não estudou literatura, mas isso não quer dizer que eu não pense na forma de meus romances - diz Franzen, citando o longo trecho de "Liberdade" narrado como a autobiografia em terceira pessoa de uma personagem, que tem função central na trama.



Justamente por prezar a dimensão experimental do trabalho do colega, Franzen escreveu duramente, no ensaio da "The New Yorker", contra amaneira como Wallace passou a ser lido desde sua morte. A publicação do romance que deixou inacabado, "The pale king", lançado com fanfarra em abril no Estados Unidos, provocou uma onda de resenhas pirotécnicas e perfis hagiográficos que, aponta Franzen, destacam apenas o discurso humanista do escritor, deixando de lado as características sombrias e perturbadoras que são parte essencial de sua obra.



- Eu estava reagindo a uma leitura superficial de Dave, que tenta transformá-lo numa espécie de santo. Isso incomoda qualquer pessoa realmente interessada no trabalho dele, que pode ser extremamente sombrio. Dave era um grande amigo, uma das pessoas mais amáveis que conheci, mas também tinha seus problemas.





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0h00m.

Resenha de 'Liberdade', de Jonathan Franzen

Liberdade, de Jonathan Franzen. Tradução de Sergio Flaksman. Editora Companhia das Letras, 608 páginas. R$ 46,50.



Por Marcelo Moutinho*



O jornal “The Guardian” classificou-o como “o livro do século”. A apresentadora Oprah Winfrey incluiu a obra em seu prestigioso Oprah’s Book Club. O próprio presidente Obama devorou as mais de 600 páginas durante as férias. Além disso, o autor figurou na capa da revista “Time”, cuja chamada proclamava que Jonathan Franzen “nos mostra o modo como vivemos hoje”. Diante de tanto confete, uma pergunta se impõe: “Liberdade” justifica o frisson ou é mera fumaça midiática?



Descontada a profecia hiperbólica do “Guardian”, a resposta ganha feição positiva. O livro, ao qual o escritor se dedicou por nove anos, traz uma daquelas histórias com as quais nos enredamos a ponto de querer adiar o fim. Franzen evoca os chamados romances panorâmicos, que buscam descortinar o espírito de um tempo sob a perspectiva de um grupo de indivíduos. No caso de “Liberdade”, os Berglund.



A saga familiar atravessa quatro gerações e é esboçada em prosa realista, não linear. Walter e Pathy são um casal liberal de classe média e têm dois filhos, Joey e Jessica. Há um terceiro vetor: Richard Katz, músico com quem Pathy flertou rapidamente antes de se unir ao marido. Katz aparece como um dos elementos desesta$da aparente harmonia dos Berglund. O outro é Joey, cuja declarada simpatia pelo Partido Republicano ativa no pai, democrata até o último fio do cabelo, os instintos mais primitivos. “Ele tem o ar superior de quem frequenta Wall Street”, diz Walter.



A conjuntura pós 11 de Setembro está no centro do romance, embora a descrição se estenda por décadas. Conjugando os dramas pessoais de seus personagens com a pauta política, Franzen aborda temas como o conflito entre Israel e Palestina, o aquecimento global, a invasão do Afeganistão e a ofensiva contra o Iraque “para tomar as armas de destruição em massa de Saddam Hussein”, que recebe inflamada defesa de Joey.



Bem urdida, a trama se estrutura a partir do desenho de perfis que serão aos poucos desconstruídos. Walter, o ambientalista que faz questão de ir de bicicleta para o trabalho, envolve-se com mineradoras de carvão. Pathy, a mãe zelosa, expõe um inusitado talento para a perversidade. Katz, antagonista na contenda amorosa por ela, revela a intensidade de seu amor — um amor fraterno — por Walter.



Um dos méritos de Franzen é a densidade que dá aos personagens, tornando-os quase palpáveis, capazes de provocar dó, empatia, repulsa e mesmo fúria — estados que se revezam no sentimento do leitor. Na intenção de fazer o inventário social de uma época, o autor capta também a perplexidade de quem testemunha a mudança dos ventos, sintetizada por Walter quando se vê sozinho em um concerto de rock para jovens: “Era mais uma espécie de desespero diante do esfacelamento do mundo. Os EUA estavam travando duas guerras terrestres e feias em dois países, o planeta estava se aquecendo como um forno elétrico, e ali no 9:30, ao seu redor, havia centenas de meninos e meninas (...) com suas suaves aspirações, sua ideia inocente de que tinham direito — a quê? À emoção.”



A narrativa transita com leveza da melancolia ao humor, e a plausibilidade dos diálogos garante ótimos momentos, como aquele em que Walter, já na meia-idade e ao lado de sua sedutora assistente, toma a primeira cerveja da vida. Ou, ainda, a longa “DR” na qual Katz e Pathy tentam compreender afetos guardados em banho-maria, subitamente reaquecidos.



A destreza literária de Franzen, já atestada no anterior “As correções”, não impede, contudo, que recaia num erro primário. Sob o pretexto de uma recomendação do terapeuta para que anotasse as próprias memórias, em alguns capítulos Pathy assume a condução do relato. O registro formal, no entanto, é idêntico ao do narrador onisciente — exceto pelo fato de ela, com intimidade, chamar Katz de Richard. Pouco para uma alteração tão brusca.



Capital na cultura americana, o conceito de liberdade a que alude o título do livro se desdobra para além do viés político. Pairando sobre todo o romance em frases, placas, slogans, refere-se igualmente à esfera privada, e nem sempre como sinônimo de ventura. “A personalidade suscetível ao sonho da liberdade ilimitada também tende, quando o sonho desanda, à misantropia e à ira”, salienta o narrador ao comentar as diabruras do avô de Walter, que, na direção de um automóvel, desrespeita os demais motoristas. A indireta, com jeitão de autocrítica, é uma piscadela ao leitor. Como se Franzen sugerisse: assim como o velho Einar, certas nações às vezes abusam ao volante.

*Marcelo Moutinho é escritor e jornalista



Autor de "Liberdade", saga familiar lançada no Brasil, Jonathan Franzen confirma presença na Flip em 2012




Geoff Pugh - 27.set.10/Rex Features



O autor norte-americano Jonathan Franzen em sessão de fotos no Gore Hotel, em Londres



ÁLVARO FAGUNDES

DE NOVA YORK



Jonathan Franzen, 51, tem quatro livros de ficção, o suficiente para ganhar a capa da revista "Time" em 2010 e ser chamado de o grande romancista americano.

O mais recente, o premiado "Liberdade", que chega agora ao Brasil, é um épico sobre uma família do Meio-Oeste dos anos 80 até a era George W. Bush (2001-2009).

Na entrevista, Franzen fala de suas inspirações e do convívio com novas tecnologias.











Folha - Antes de falar sobre o livro, o sr. vai à Flip de 2012?

Jonathan Franzen - Sim, eu já me comprometi. O Luiz Schwarcz [dono da Companhia das Letras] é muito persuasivo. Também sou ornitófilo e o Brasil é um ótimo lugar para ver pássaros.



O sr. já criticou a TV e outras mídias, mas elas foram incorporadas à sua narrativa. Como elas afetam seu trabalho?

Eu me isolo delas. Quando estou trabalhando, não tem música, internet. Gosto delas, mas distraem facilmente.

Porém não vejo a razão do Twitter e o Facebook me irrita. Já o e-mail é uma invenção maravilhosa, e abrandei minha posição sobre a TV.

Algumas séries se desenvolvem como os grandes folhetins do século 19.



Em "Liberdade", o sr. menciona mais de uma vez "Guerra e Paz". Tem outros livros que o inspiraram?

Quando estava travado, um livro que me faz andar foi "O Teatro de Sabbath", de Philip Roth. Pensei muito em Stendhal, Tolstói e em Alice Munro, gênia canadense.



Em época de Twitter e SMS, tudo parece estar mais curto. O seu livro é o oposto, tem mais de 500 páginas e foi um sucesso. Como se explica?

Não acredito que as pessoas que gostam de ler livro queiram um romance curto.

Exatamente porque estamos numa era com tantas distrações, a exigência sobre os romances é maior. Não dá para deixar passar partes que não funcionam. Caso contrário, o livro nunca será lido.

Ele ainda é meu chapa", diz Franzen sobre Obama




Autor afirma que pela primeira vez não está furioso com presidente dos EUA



Para escritor, perigos modernos residem na falta de alternativa para a situação ambiental e na mídia eletrônica



DE NOVA YORK



Na continuação, Jonathan Franzen fala sobre a admiração por Obama e sua preocupação com as novas tecnologias.

(ÁLVARO FAGUNDES)











Folha - Uma boa parte do livro se passa durante os anos George W. Bush. Se a história continuasse, como o sr. imagina que escreveria sobre o governo Obama?

Jonathan Franzen - É uma questão que não posso responder até que escreva meu próximo livro. É a primeira vez que ele é alguém que admiro e apoio. Ainda é meu chapa.

Eu sou um desses escritores que se sentem mais confortáveis quando estão reagindo contra algo. Pela primeira vez, não estou furioso com o presidente.



Talvez então ele não sirva para um bom livro.



Em que áreas o sr. não está satisfeito?

Estou incomodado com a situação ambiental, com a falta de uma alternativa plausível para o crescimento insustentável.

Além disso, me incomoda essa tendência narcisística na mídia eletrônica. A internet supostamente ia nos levar a entender melhor as pessoas. Neste país, estamos indo para o lado oposto.

Estou preocupado com a perda do espaço público. Comunidades on-line não são o mesmo que comunidades.

Isso incomoda, mas também significa que tenho assunto para escrever.



LIVRO



ROMANCE

Liberdade

Jonathan Franzen

EDITORA Companhia das Letras

TRADUÇÃO Sergio Flaksman

QUANTO R$ 46,50 (608 págs.)

terça-feira, 22 de março de 2011

Retratos escritos

Da BRAVO

by almirdefreitas




.Retratos escritos


Mais semiótica… Os cartazes acima, bolados pela etcetera, são da Semana de Literatura Holandesa, que acontece até o dia 26 deste mês (alguém a a caminho de Amsterdã?). O tema deste ano são biografias e autobiografias, daí o nome Retratos Escritos e a ideia dos rostos esculpidos. Na ordem: Anne Frank (sim, a do diário), Kader Abdollah (escritor iraniano radicado na Holanda), Louis van Gaal (ex-técnico da Seleção holandesa, hoje no Bayern de Munique) e Vincent Van Gogh (que dispensa apresentações).

domingo, 13 de março de 2011

Repercusao do lançamento de COMO FUNCIONA A FICÇAO 1

 O ULTIMO SEGUNDO do portal IG tambem publicou ontem  uma otima entrevista exclusiva com James wood em que o critico toca na relaçao com outro grande critico literario, Harold Bloom que é considerado o comentarista mais influente e conhecido dos ultimos tempos.


Ao longo da semana postarei  alguns comentarios pontuais sobre alguns pontos do livro que acho mais interessates além de LINKS e resenas de outros sites.

Crítico inglês alimenta polêmicas na literatura


James Wood, da "New Yorker", lança no Brasil "Como Funciona a Ficção", que funciona como um guia para se ler melhor

Jonas Lopes, especial para o iG
12/03/2011 00:22

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Foto: Divulgação Ampliar

O crítico literário James Wood

Foi-se o tempo em que a palavra de um crítico era suficiente para decretar o paraíso ou o inferno de uma obra de arte. No caso da literatura, já não há alguém com a influência de Edmund Wilson (1895-1972), que promoveu a geração de F. Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway e celebrou clássicos do modernismo logo no lançamento (Marcel Proust, James Joyce e T.S. Eliot entre eles). Alguns dos grandes críticos atuais estão muito velhos para o debate público, caso de Harold Bloom e George Steiner; outros morreram há poucos anos, a exemplo de Susan Sontag.



Uma grata exceção é o inglês James Wood. Atual titular da seção de livros da revista americana "The New Yorker" (cargo que já foi, aliás, ocupado por Wilson e Steiner), Wood pode não ter a capacidade de transformar a trajetória de um romance, mas seus artigos ainda fazem muito barulho. A ponto de ter sido um criado um blog dedicado apenas a atacá-lo, Contra James Wood (contrajameswood.blogspot.com), atualmente pouco atualizado.



Entre os argumentos de seus detratores, está o de que o britânico recorre a preferências puramente pessoais para atacar ou defender os autores. É, por exemplo, admirador do realismo do século 19, praticado por autores canônicos do nível de Flaubert, Henry James e Tchekhov, o que lhe garante a pecha de “conservador”. Aprecia ainda o que chama de “estilo livre indireto”, no qual a voz do personagem se mistura à do narrador.



Segundo os inimigos do crítico, existe um preconceito por parte dele em relação a quem não se encaixa nesses preceitos. O alvo favorito de Wood é o que ele classificou de “realismo histérico”, estilo caracterizado pelos truques pós-modernos e pela pouca ênfase na psicologia dos personagens. Thomas Pynchon, Don DeLillo e David Foster Wallace se encaixam no conceito.



James Wood, que já passou pelas redações do jornal britânico "The Guardian" e da revista "The New Republic", é professor de crítica literária em Harvard. A experiência o inspirou a escrever "Como Funciona a Ficção", uma espécie de guia para se ler melhor, baseada na análise de aspectos básicos do texto ficcional - personagens, discurso, realismo, ponto de vista. O autor aceitou falar com o iG sobre o livro, que será lançado hoje pela Cosac Naify.



iG: Seus artigos causam polêmica no meio literário. É obrigação do crítico ser brutal em determinados textos?

James Wood: Os críticos escrevem para os leitores, não para os escritores. Então o que pode parecer uma crueldade enorme quando se trata de um texto que provavelmente será lido pelo autor, não fica tão cruel assim se você se lembrar de que está escrevendo para os leitores, que há um serviço prestado pelo resenhista. Nesse sentido, acho que os críticos precisam ser brutalmente cruéis, sim. Claro que isso não é muito positivo se você pensar só no escritor.



iG: Existe um blog dedicado a examinar e atacar seus textos, o Contra James Wood. A que atribui essa raiva pessoal que algumas pessoas sentem pelos seus artigos?

James Wood: Alguns dos blogs nos EUA fazem uma espécie de guerra literária entre os “tradicionais” e os “novos” da literatura. De um lado há aqueles tidos como conservadores, pessoas que gostam de realismo, que escrevem para um grande público. Do outro lado, há a linhagem avant-garde, antirrealista, formada por pessoas que experimentam estilos radicais na forma do romance, admiram gente como o David Foster Wallace (escritor morto em 2008). Gosto de pensar que estou bem no meio desses dois lados antagônicos. Escrevi "Como Funciona a Ficção" para tentar estabelecer essa minha posição central. Mas algumas pessoas, como as que escrevem no Contra James Wood, não me veem como estando no meio, e sim como alguém do establishment, e me atacam por acharem que sou conservador.





Foto: Reprodução Ampliar

Milan Kundera: para James Wood, escritor é exemplo de quem nem todo crítico é um autor frustrado

Eles gostam apenas do risco na ficção, da quebra de regras, do excesso. Também gosto disso em literatura, claro. Mas essas pessoas não gostam de simplesmente nada que eu escrevo. É uma pena pensarem que sou desse establishment. E, do ponto de vista de um blog, é importante atacar alguém que pertença a essa elite, como acham que eu pertenço, da maneira como puderem.



iG: Em sua opinião, a literatura se torna melhor quando há crítica realmente severa?

James Wood: Sim, é importante que haja uma boa crítica. Quando as pessoas escrevem sobre mim em blogs ou em outros lugares, fico grato por esses blogs existirem, pois me mostram quando estou ficando muito repetitivo ou conservador. Esses textos me fazem pensar sobre o que eu não estou fazendo corretamente. E acho que é exatamente isso que os críticos têm de fazer para os escritores, mesmo que seja muito difícil para os autores aceitar isso.



iG: Você já publicou um livro de ficção, "The Book Against God" (O livro contra Deus). O que acha do velho clichê de que todo crítico é um romancista frustrado?

James Wood: Faz sentido, sim. Mas com um porém. Muitas das grandes críticas literárias foram escritas por escritores fabulosos, como Henry James ou Milan Kundera, e o tipo de crítica que aprecio é aquela que me empolga como se estivesse lendo um romance. É verdade, no entanto, que hoje muitas resenhas são escritas por romancistas frustrados, mas não podemos nos esquecer de que antes, no século 19, a crítica era formada por grandes ficcionistas.



iG: Se o modernismo começa com Flaubert, como você afirma em "Como Funciona a Ficção", termina com quem? Ou ainda não terminou?

James Wood: Não acho que a tradição flaubertiana tenha acabado. E uma das razões pela qual eu dei a Flaubert esse prestígio no livro foi para mostrar que esse estilo de realismo que ele inventou continua a ser usado na literatura, até mesmo nos best-sellers. Não gosto necessariamente de todos os produtos nascidos a partir desse realismo flaubertiano, mas quis ressaltar que algo inventado em 1850 continua sendo usado hoje.



iG: Ainda é possível um autor escrever seguindo preceitos do passado, como a ênfase na trama e nos personagens, e mesmo assim soar contemporâneo? Quem se encaixa nessa categoria?

James Wood: Sim, muitos exemplos se encaixam perfeitamente nesse quesito. J.M. Coetzee (escritor sul-africano premiado com o Nobel em 2003) é um deles. Alguns de seus romances são mais experimentais e radicais, mas sua obra mais popular, "Desonra", usa o realismo tradicional, tem frases simples e baseia-se em preceitos básicos do realismo. Essa tradição não é exaustiva. O que é incrível no mundo do romance é que a qualquer momento um escritor vem e revitaliza a maneira de escrever o romance - seja um escritor experimental ou tradicional. A maestria está na seriedade com que o projeto é levado. Admiro José Saramago, mas entendo que essa não é a única maneira pela qual alguém possa escrever ficção, ou que todos os livros precisam ser escritos no estilo de Saramago, com frases longas e sem muita pontuação.





Foto: Reprodução

"Admiro José Saramago, mas entendo que essa não é a única maneira pela qual alguém possa escrever ficção"

iG: O romance, em nossos dias, deve dizer algo sobre os problemas do mundo?

James Wood: Isso é complicado. Pessoalmente, gosto de escritores que tratem da condição humana, que discutam quem somos, quais são as nossas motivações por fazer o que fazemos, os motivos que nos levam a viver. Nesse sentido, a ficção deve dizer algo sobre o mundo, não necessariamente os problemas do mundo, mas sobre o mundo no qual estamos vivendo agora, sobre como vivemos nossas vidas. Mas não acho que a literatura tenha que obrigatoriamente estar repleta de discussões seriíssimas sobre as grandes questões mundiais.



iG: Você elogia o trabalho do português José Saramago. Conhece outros autores de língua portuguesa?

James Wood: Gosto muito de Machado de Assis. Quando tinha uns 20 anos, alguém me disse que, se eu gostava de Tchekhov, iria gostar de Machado, então fui lê-lo. Apesar de não achá-los tão parecidos assim, gosto muito de Machado.



iG: Cursos de escrita criativa podem transformar aspirantes a autores em grandes escritores?

James Wood: Não. Acredito que os bons escritores que frequentaram cursos de escrita criativa já eram bons antes de comparecerem às aulas. Os cursos podem ajudar, é claro. O problema é que há muitas pessoas fazendo esses cursos e muitas delas são ruins. Nos EUA, só deve haver um ou dois bons cursos, e neles provavelmente deve haver alguns poucos bons escritores. Nada mais.



iG: Pouco depois da última eleição presidencial, você escreveu uma análise positiva da retórica de Barack Obama. O governo de Obama está à altura de sua oratória?

James Wood: Nenhum governo é tão bom quanto a retórica de um presidente. De todo modo, Obama devia se aproveitar mais de sua oratória, fazer mais discursos, como os que fez durante a campanha. Se ele tem o dom da fala, devia usar isso todos os dias para se comunicar com o povo. Infelizmente, no último ano, ele não se comunicou tanto com os americanos. Mas, de um modo geral, estou satisfeito com o que o governo de Obama está fazendo nos Estados Unidos.



"Como Funciona a Ficção"

James Wood

232 páginas

Cosac Naify

Preço sugerido: R$ 49

sábado, 12 de março de 2011

“Como funciona a ficção” James Wood: 'A literatura é vida na página'





James Wood: 'A literatura é vida na página'

Finalmente é publicado no Brasil o livro de james wood, How ficcion work!

 Wood é um critico monumental, um comentador erudito e apaixonado, dotado de imenso talento analitico e perspicacia ensaistica.

Tenho lido e comentado Wood desde que seu livro saiu na ediçao inglesa. Sua clareza expositiva Impressiona!
Mesmo fazendo analises profundas e inteligentes sua prosa fluida faz da leitura critica um prazer até superior a alguns romances.

No Brasil seu livro vai dar o que falar !
 Em um pais com indices tao baixos de leitura e compreensao ( pesquisa divulgada recentemente mostra que apenas 1%  dos estudantes possuem uma biblioteca com mais de 500 livros) em que a maioria dos poucos leitores de ficçao consomem apenas best-sellers descartaveis nao sera surpresa se o livro for taxado de elistista e canonico demais.

Wood pode até dar mais atençao aos escritores consagrados pelo tempo mas justifica cada escolha com sua analise apurada e original.
Desmente brilhantemente a falacia de que a critica é muito teorica e afastada da criaçao artistica! Ler Wood é descobrir o real significado da palavra critica!





















James Wood: 'A literatura é vida na página'


Numa nota introdutória a “Como funciona a ficção” (Cosac Naify, tradução de Denise Bottmann), James Wood conta que escreveu a obra usando apenas “os livros à mão em meu escritório”. Uma olhada na bibliografia revela um pouco sobre os hábitos de leitura do ensaísta da revista “The New Yorker”, o mais influente crítico literário em língua inglesa hoje. Entre os 120 títulos citados por Wood, predominam os expoentes do cânone realista (Tchekhov, Henry James, Flaubert, Tolstói e Conrad, por exemplo, aparecem com três ou quatro obras cada) e nomes emblemáticos da literatura europeia e americana do século XX (Proust, Joyce, Woolf, Nabokov, Bellow, entre outros).



A predileção pelos clássicos reflete o estilo do crítico, e “Como funciona a ficção” serve ao mesmo tempo como introdução a uma história canônica da literatura e guia para entender o método de Wood, que ganhou admiradores e detratores em duas décadas de carreira com passagens pelo jornal britânico “The Guardian” e pela revista americana “The New Republic”. No livro, o autor, também professor de crítica em Harvard, usa a leitura cerrada dos textos, frase por frase, para discutir aqueles que considera os principais elementos da criação literária, como construção de personagem, ponto de vista narrativo e efeitos de verossimilhança.



Em entrevista ao GLOBO por telefone, Wood explica sua concepção de realismo, que define não como um gênero literário, mas como “vida animada”: para ele, o que determina o realismo de um texto não é seu grau de verossimilhança, e sim o fato de transmitir “vitalidade”. Wood responde ainda às críticas que o acusam de se ater apenas aos mecanismos internos do texto e ignorar as relações entre as obras literárias e as questões políticas e culturais de seu tempo. Também autor de um romance (“The book against God”, de 2003, inédito no Brasil), Wood revisita a polêmica provocada por seu conceito de “realismo histérico”, criado num ensaio de 2000 sobre Zadie Smith, em que atacava outros autores contemporâneos como Salman Rushdie, Thomas Pynchon, Don DeLillo e David Foster Wallace pela prosa maximalista e por se preocuparem mais com fenômenos sociais do que com questões humanas.



Você define o realismo não como um gênero literário, nem em termos de representação da realidade, mas como “vida animada” (“lifeness”). O que significa essa expressão?



JAMES WOOD: Tenho consciência de que é um termo desajeitado, e queria mesmo que soasse assim, em homenagem a todos que ao longo dos séculos tentaram falar da literatura como algo de certa forma relacionado à vida. Infelizmente, nos últimos tempos sempre voltamos a essa palavra incômoda, “realismo”, que acaba nos distraindo. Quero transmitir uma ideia de literatura como vida na página, e isso liberta o autor de ser um realista ou de escrever com verossimilhança. Um personagem pode ser pouco mais que uma voz, pode ser uma ausência ou um enigma, e ainda assim ter uma profunda vitalidade humana. É isso que quero dizer com “vida animada”.



E o que faz um bom personagem?



WOOD: Certamente esse conceito misterioso de vitalidade. Por isso é tão difícil construir um bom personagem, porque essa vitalidade vem do coração do escritor, é algo que ele simplesmente tem ou não. Todos sabemos, ao abrir um livro, se ali há vida. É uma daquelas coisas que não podem ser ensinadas. Outro critério para um bom personagem é uma qualidade de mistério, uma sutileza, um elemento inexplicado que está além do texto. E não precisa ser um personagem redondo. Muitas vezes um personagem plano, que tem apenas uma característica marcante, se torna enigmático para nós precisamente por não termos muita informação sobre ele. É difícil responder a essa pergunta, mas tem algo a ver com vitalidade e mistério.



Você encontra essa “vitalidade” em obras que fogem ao cânone realista e rejeitam noções ligadas a ele, como a própria ideia de personagem?



WOOD: Claro. Em Beckett, por exemplo, mesmo em suas últimas obras, que parecem narradas por um fantasma ou um morto, existe vitalidade. Há algo na linguagem que transmite vida. Em “Como funciona a ficção”, menciono o livro de Saramago sobre Ricardo Reis (“O ano da morte de Ricardo Reis”, que imagina uma biografia para o heterônimo de Fernando Pessoa), no qual há algo de maravilhosamente vívido. Embora seja a história de um fantasma, esse personagem está vivo, e a maneira como Saramago desdenha do sistema de pontuação e gramática transmite vitalidade. Em “Austerlitz”, de Sebald, você sente que uma vida foi oferecida a você. Ao fim do livro, o personagem continua um enigma completo, procurando pelos pais assim como estava no início, mas toda uma história de vida desfilou diante dos seus olhos. E Philip Roth, em “O avesso da vida”, faz o que eu chamo de “jogos sérios” com as convenções do realismo, que denotam uma presença humana.



Você cita Roland Barthes como uma grande influência. Ele é símbolo de uma época em que a crítica literária tinha muita ascendência sobre outros campos de estudo, o que não é mais o caso. Do ponto de vista de alguém que está tanto na academia quanto na imprensa, onde acredita que se pode encontrar boa crítica hoje?



WOOD: De fato, aquela época excitante da crítica literária deu lugar a uma mais insossa. No tempo de Barthes, havia uma confluência de excitação política e efervescência interdisciplinar. Mas um jeito otimista de olhar para isso é que, quanto mais provinciana e desimportante fica a crítica acadêmica, mais espaço há para o ensaísmo e a crítica jornalística. Acho que a boa crítica pode ser encontrada aí. Escritores e leitores ainda mostram interesse pela forma do ensaio, principalmente aqueles que se movem entre a resenha e o discurso acadêmico. Na academia sou visto como alguém mais ligado ao jornalismo, porque os departamentos de literatura tendem a considerar que só os acadêmicos podem refletir sobre a literatura.



O que você aprendeu com as críticas ao seu próprio romance, “The book against God”?



WOOD: Aprendi que a maioria dos problemas que eu via no romance eram visíveis. Nem todas as resenhas eram bem escritas, mas a maior parte delas tocava nas fraquezas do livro, então aprendi que mesmo as resenhas menos inteligentes contêm pelo menos uma verdade. Aprendi também que escrever um romance é muito solitário, porque você nunca pode dizer se é bom ou não, e não consegue confiar na opinião de ninguém. Tenho planos de escrever outro, nem que seja só para melhorar um pouco em relação ao primeiro. A experiência foi como quando você está doente e promete a si mesmo que, ao melhorar, vai ficar eternamente grato pela boa saúde, mas pouco depois se esquece completamente disso. Por um tempo, depois de publicar o romance, fiquei consciente de como é ser criticado e pensei: “Ok, vou ser mais legal com os outros daqui em diante”. Mas logo me esqueci disso e comecei a implicar de novo.



Sua atividade como crítico também é alvo de muitas críticas. Já foi dito, por exemplo, que você se detém excessivamente em aspectos de estilo e não se preocupa com a relação das obras com questões políticas e culturais de seu tempo. Como recebe essas críticas?



WOOD: Dizer que não me concentro em questões políticas e sociais não está errado, mas esse pensamento tende a privilegiar uma certa visão da atividade crítica, e há um outro tipo de crítico que é mais um esteta. Tenho consciência das minhas limitações, e fui levado por essas críticas a tentar sair de um hábito que eu havia adquirido, o de criticar sempre os mesmos livros. Essa foi uma das razões da minha mudança para a “New Yorker”, onde tenho podido escrever com entusiasmo sobre uma gama de autores contemporâneos. Estou tentando ampliar meu escopo. Geralmente escolho escritores de que gosto, mas sei que não sou especialmente receptivo ao pós-modernismo. Tentei nos últimos tempos não resenhar livros que sei que não vou gostar, mas procuro autores contemporâneos sobre os quais sinto que posso dizer algo interessante. Recentemente escrevi sobre Aleksandar Hemon e Geoff Dyer, dois autores que evadem caracterização fácil e estão longe do que se costuma definir como realismo.



Você também foi criticado ao definir como “realismo histérico” o estilo de uma gama de autores que ia de Thomas Pynchon e Salman Rushdie a Zadie Smith e David Foster Wallace. Ainda acha o termo válido?



WOOD: Quando me criticaram pelo “realismo histérico”, sempre deixaram de fora a parte mais importante, que era minha crítica ao próprio realismo. Eu sentia que em alguns autores, como Rushdie, a escrita simplesmente não era interessante, porque, de um lado, parecia humanamente implausível, e, por outro, apenas imitava a gramática básica do realismo. Com Pynchon é o mesmo, nos últimos livros está lá o tom farsesco que todos amam nele, mas, frase por frase, não há nada que force os limites do realismo, nada radical como em Beckett. O mesmo vale para Paul Auster, cujos livros estão cheios de jogos pós-modernos superficiais, mas 80% daquilo são indistiguíveis da mesmice realista que se vê por aí. Acho que a crítica continua atual, mas eu faria algumas ressalvas. De todos eles, David Foster Wallace era claramente alguém que estava tentando fazer algo novo no nível da frase. Ele estava “escrevendo a dificuldade”, por assim dizer, e é preciso dar crédito a ele. No fundo, os verdadeiros alvos eram Rushdie e Pynchon.



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10h10m.

Flora Süssekind resenha 'Como funciona a ficção', de James Wood

Como funciona a ficção, de James Wood. Tradução de Denise Bottmann. Editora Cosac Naify, 232 páginas. R$ 49.











Há uma dimensão quase farsesca no pragmatismo crítico de James Wood. Se é que se pode chamar de “crítica” uma reaplicação anacronizante e redutora (em geral, sem qualquer crédito) de categorias e perspectivas analíticas alheias como a que move o livro “Como funciona a ficção”. Algo, de fato, soa falso desde a epígrafe auto-irônica, evocando culinária (mas, com nobreza, via Henry James), e a introdução tratando o próprio ensaio de “manual” e “livrinho”. Pois, geminada a esse topos da despretensão, ao didatismo do guia de apreciação literária, que se deseja, em (condescendente) linguagem terra-a-terra, de algum uso para o leitor comum, há uma primeira pessoa fortemente impositiva, e incapaz de autoproblematização, conduzindo tanto a exibição de uma espécie de florilégio do cânone moderno, quanto um elogio pouco velado à própria capacidade de distinguir o “engenhoso” do “realmente interessante” e de resolver “de forma prática” as questões teóricas fundamentais sobre a ficção a que a “teoria literária e a crítica acadêmica”, a seu ver, não teriam chegado a responder “muito bem”.



A crítica universitária e a reflexão teórica não à toa aparecem como antagonistas desde as primeiras páginas de seu manual. Mas antagonistas que funcionam como desconfortáveis pontos cegos de um crítico que procura deslizar com estilizada naturalidade, e sem maiores paradas reflexivas, pelas questões de narrativa e teoria da ficção que mal deixa virem à tona em seu texto. “Quando um estilo se decompõe, se aplaina num gênero”, diz Wood, a certa altura, sobre o realismo comercial. Se haveria o que discutir nas noções woodianas de estilo, realismo e gênero, há algo nessa observação que parece se voltar contra seu autor. Quando a crítica se decompõe, e perde a reflexividade que a define, pode se aplainar em florilégio e manual. Assim como conceitos e questões, descontextualizados, perdem força cognitiva e viram vocabulário vip para leitores cultivados.



É assim que extrai de Erich Auerbach a noção de mescla de estilos e a concepção de mimesis (que não chega, porém, a definir de fato em momento algum) por meio das quais procura definir o realismo moderno; é em Chklovski, e em suas considerações sobre a imagem poética, que (sem dizer) procura ancorar, mas em sentido oposto ao da desfamiliarização, um elogio à metáfora, “pequena explosão de ficção dentro da ficção”, que “cria um estranhamento e logo em seguida faz uma conexão”; as observações sobre ponto de vista presentes em “Como funciona a ficção” apontam, por sua vez, diretamente para Wayne Booth; e é de estudiosos como Ann Banfield, Genette e Roy Pascal, dentre outros, que toma emprestada (mas achatando-a) a discussão sobre o estilo indireto livre, que parece guiar suas considerações sobre aproximação e distância focal entre autor e personagem. Mesmo quando os empréstimos são óbvios, não há qualquer discussão dos estudos modernos e contemporâneos mais relevantes sobre narratologia e ficção. Wolfgang Iser ou Mieke Bal, para ficar em dois exemplos de leitura obrigatória em qualquer universidade, não recebem sequer referência em nota.



Resta apenas a admiração meio vaga por Barthes e Chklovski. E, dado curioso, e certamente não gratuito, não há qualquer menção, por parte de Wood, em todo o livro, a Dorrit Cohn, professora em Harvard, como ele, e uma das mais importantes estudiosas atuais dos modos narrativos de representação da consciência. O silêncio, nesse caso, parecendo se aproximar de certa ironia (igualmente meio velada) com relação a John Updike, que o antecedeu como resenhista literário na revista “The New Yorker”. Pois se a dualidade e os jogos focais entre narrador e personagem são fundamentais à visão woodiana de ficção narrativa, não parece haver lugar para mais de um ponto de vista em sua prática crítica. Ou para maiores flexibilidades e indeterminações na voz didático-autoral que figura para si mesmo no ensaio em que, paradoxalmente, tematiza o estilo indireto livre.



O procedimento-guia de todo o livro é, também, sempre idêntico. Sugerem-se temas interligados — narrativa, olhar, personagem, detalhe, diálogo, empatia, consciência, realismo e assim por diante — e, sem maiores investigações históricas ou conceituais, passa-se a algum tipo de exercício de “close reading” no qual, mais do que iluminar analiticamente os trechos escolhidos, em sua maioria verdadeiros lugares comuns da crítica moderna (Flaubert, Virginia Woolf, Henry James, Kafka, Tolstoi), procura-se ressaltar sobretudo a voz de mestre, a “capacidade de ver e relatar o que vê” do crítico. Uma visão da qual se procura excluir o “projeto literário contemporâneo”, como se refere a ele o crítico. À exceção de um ou outro exemplo já canônico, como Saul Bellow, a cuja obra James Wood tem se dedicado regularmente. O que não deixa de ser curioso, sobretudo num crítico dedicado desde jovem ao jornalismo literário, primeiro nos suplementos ingleses, depois nos EUA, na “The New Republic” e atualmente na “The New Yorker”. Ao lado do impasse teórico-reflexivo, a contemporaneidade parece se apresentar como um segundo ponto cego que poderia forçá-lo a repensar conceitos, procedimentos narrativos, a redefinir o horizonte ficcional com o qual se defronta, embate que certamente desestabilizaria o seu ensaísmo, que, em vez de pautado em naturalidades e certezas-padrão, exporia o seu “leitor comum” a uma desfamiliarização com potencial crítico bem maior do que o oferecido pelo guia recém lançado pela Cosac Naify.



*FLORA SÜSSEKIND é crítica literária, pesquisadora da Fundação Casa de Rui Barbosa, professora de teoria do teatro da UNI-Rio e autora de “A voz e a série” e “O Brasil não é longe daqui”, entre outros.



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10h05m.

Cosac Naify responde a críticas da tradutora Denise Bottmann

Por Cassiano Elek Machado*



Embora nós da Cosac Naify tenhamos ficado surpresos com o fórum que a nossa colaboradora Denise Bottmann escolheu para conduzir este debate, a grande imprensa, gostaríamos de afirmar de antemão que achamos saudável a discussão sobre quais critérios devem ser adotados na tradução e edição de uma obra. Isso é parte essencial do ofício de qualquer editora e, em especial, desta casa, amplamente reconhecida pelo tratamento dado a suas traduções.



Não por outra razão convidamos Denise Bottmann, profissional experiente e qualificada, que já trabalhou em mais de uma dezena de títulos da editora, para traduzir o livro "How Fiction Works", de James Wood.



É especialmente interessante que um debate como este tenha vindo à tona em relação a esse título. Desde seu lançamento nos Estados Unidos, o livro suscitou apaixonadas discussões, enfáticos elogios, retumbantes críticas e até lugar de destaque em listas de mais vendidos. Não é sempre que obras dedicadas a escarafunchar os meandros da produção literária são envoltas em tanto som e fúria. E Bottmann acaba dando aqui mais uma volta no parafuso das discussões em torno de "Como funciona a ficção".



A questão central levantada pela tradutora em sua exegese diz respeito a uma suposta falta de nexo entre os trechos de obras literárias citadas (na verdade, a tradução desses trechos) e a argumentação que o crítico inglês desenvolve ao longo da obra. No entanto, basta uma leitura atenta da edição que acaba de ser publicada pela Cosac Naify para notar que as reflexões suscitadas por Wood encontram, sim, correspondência nas traduções utilizadas, sem prejuízo para a inteligibilidade do texto e dos efeitos que o autor busca ressaltar e discutir. Adotar traduções preexistentes tem a ver com normas internas e procedimentos editoriais, mas sobretudo (porque cada livro é único) com a opção que, aqui, nos pareceu a mais acertada.



Em "Como funciona a ficção", para ilustrar seu pensamento, Wood coloca em cena diversas obras, de variados autores. Cada qual com suas especificidades e, o mais importante, suas vozes. A variedade de registros nos parece, neste caso, fundamental. Não se trata de “colcha de retalhos” mas, antes, de entender o livro em toda sua riqueza e variedade. Por isso, recorrer ao trabalho dos tradutores que dedicaram anos (às vezes, décadas) aos autores citados por Wood nos pareceu algo incontornável. Sobretudo por termos nos valido para tal do trabalho de profissionais destacados como Boris Schnaiderman, José Paulo Paes, Rubens Figueiredo, Paulo Henriques Britto, Sergio Flaksman, José Rubens Siqueira, entre outros. Não que a tradução de Denise Bottmann seja insuficiente nesses casos, mas editorialmente nos pareceu importante levar em conta as versões feitas dentro de um contexto maior, por tradutores que se dedicaram mais amplamente à obra dos autores convocados por Wood. Em algumas situações pontuais, verificamos que detalhes discutidos pelo crítico se perdiam nas traduções adotadas. E, nesses casos, consultamos os tradutores e fizemos ajustes para que encontrassem correspondência no texto – e, assim, "Como funciona a ficção" de fato funcionasse.



Para ilustrar esse caminho tomado pela edição (quando se trata de edição há sempre muitos caminhos), podemos tentar refletir sobre alguns dos “problemas” levantados pela tradutora.



No trecho citado em que Wood trata do estilo indireto livre a partir de "Pelos olhos de Maisie", de Henry James, a análise da tradutora nos parece apressada. A questão aqui é que o foco da discussão de Wood foi deslocado ou não completamente compreendido. Para o crítico inglês, no trecho citado (“Foi por causa dessas coisas que sua mãe conseguira contratá-la por tão pouco, quase de graça: foi o que Maisie ouviu (...)”), a marca do discurso indireto livre não recai sobre o uso de “mãe” ou “mamãe”. O que Wood quer nos dizer é que Maisie, por ser uma criança, não é capaz de entender as razões que levaram sua mãe a contratar a governanta por tão pouco. A marca do discurso indireto livre aqui está em “foi por causa dessas coisas”: não sabemos que coisas são essas, porque Maisie não sabe. É nessa omissão que está o engenho de James – pelo menos o engenho ao qual Wood quer nos chamar a atenção aqui. Wood nos diz que a visão oficial “entreouvida” por Maisie é de quem “entende mais ou menos do que se trata”. E completa: “James precisa nos fazer sentir que Maisie sabe muito, mas não o suficiente”. Ou seja: o efeito de discurso indireto livre do trecho está inteiramente preservado. É claro que a tradutora tem o direito de reivindicar o “mamãe”. Mas Paulo Henriques Britto, em sua tradução, feita há dez anos e revista no ano passado (no título que inaugurou o selo Penguin/Companhia das Letras) fez essa opção. E é interessante perceber como no mesmo excerto, mais abaixo, a tradução utilizada dá conta desse efeito de intimidade, quando Henry James diz que junto à sra. Wix, Maisie experimentava uma sensação única de segurança que “nem o papai, nem a mamãe” lhe proporcionavam.



Bottmann também argumenta que a tradução da expressão “tucked-in and kissed-for-good-night feeling” por “sensação de aconchego e ternura” tornou-se insuficiente para a coerência do comentário de Wood. A expressão “to tuck in”, por exemplo, significa algo como “enfiar os dedos entre as cobertas e o corpo da pessoa que está deitada para que as cobertas fiquem bem apertadas em torno dela, como gesto afetuoso e protetor”. Como dizer isso em português com duas sílabas? A solução proposta pela tradutora (“ser-ajeitada-na-cama”) não reproduz, a nosso ver, exatamente o efeito carinhoso, de intimidade, que a expressão tem em inglês. Trata-se de algo típico de uma criança que foi posta na cama pedir: “Mommy, tuck me in”. E na tradução de Paulo Henriques Britto (“sensação de aconchego”), a ideia de segurança, o carinho que Maisie sentia pela sra. Wix, a opinião de Maisie, “pessoal, muito mais calorosa”, sobre sua pobre governanta foi preservada. Tomamos, claro, o cuidado de reproduzir o trecho de Henry James em inglês, entre colchetes.



Em outro momento, a tradutora questiona a tradução de “but Rome get build”, trecho de "Uma casa para o sr. Biswas". Tentar reproduzir o inglês de Trinidad, aqui, seria temerário. No Brasil não há a situação linguística típica do Caribe, em que as pessoas aprendem na escola e ouvem no rádio e na tevê a variante padrão da língua (inglês ou francês) e no dia a dia usam um crioulo baseado na língua europeia (crioulo francês no Haiti, crioulo inglês em Trinidad etc.). Não acreditamos que, no trecho citado, se o sr. Maclean dissesse algo como “nós vai” o efeito seria alcançado. A situação social que o separa do sr. Biswas é de outra ordem, não conseguiríamos retratá-la com essa tentativa de imitar em português o dialeto usado por Naipaul. Um crioulo não é a mesma coisa que um dialeto subpadrão falado por gente sem instrução; até as pessoas mais cultas no Caribe falam crioulo em casa (assim como na Suíça de fala alemã as pessoas falam dialetos locais do alemão que não seriam compreendidos em Berlim, e no sul da Itália fala-se um italiano muito diferente do toscano). Se optássemos pela solução proposta pela tradutora (“Mas Roma tá construída”) também não chegaríamos ao efeito desejado por Naipaul e discutido por Wood – além de o termo “tá” soar, para nós, mais como marca de oralidade; não chega nem perto da ideia do “patoá de Trinidad”. Novamente, o caminho mais adequado (o único realmente fiel às palavras de Naipaul) nos pareceu citar as próprias palavras de Naipaul, como foi feito na página 188.



Poderíamos citar outros exemplos. No entanto, o mais importante para nós, para além dos caminhos que possam ser tomados em uma tradução ou edição, debate muito bem-vindo, é que o leitor encontre em "Como funciona a ficção" tudo aquilo que tem para nos dizer o autor, James Wood.



* CASSIANO ELEK MACHADO é diretor editorial da Cosac Naify.



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10h00m.

Tradutora de 'Como funciona a ficção' critica edição

Por Denise Bottmann**



O acadêmico e crítico literário James Wood escreveu um livro muito interessante, chamado "How Fiction Works". É um estudo dos principais elementos que compõem uma obra literária: a voz do narrador, a caracterização dos personagens, as figuras de linguagem, o papel dos detalhes e assim por diante.



Traduzi o livro para o português em 2008, a pedido da editora Cosac Naify. O texto em inglês é muito simpático, fluente, agradável. Wood se dirige ao leitor como se fossem seus estudantes numa sala de aula em Harvard: vejam vocês, notem isso aqui, eu acho, vamos examinar este caso, a gente fica imaginando... Em linguagem informal, Wood apresenta aqueles elementos com uma sólida articulação entre eles, num tratamento bastante sistemático e rigoroso, sendo os temas expostos numa sequência de tópicos numerados (num total de 123).



Avisa ele logo na introdução:



Neste livro, tento responder algumas das perguntas fundamentais sobre a arte de ficção. ... espero que seja um livro que faz perguntas teóricas e dá respostas práticas – ou, em outras palavras, que faz as perguntas do crítico e dá as respostas do escritor.



E para isso Wood lança mão de uma infinidade de citações e exemplos. É como se ele seguisse um raciocínio de tipo indutivo, de particular em particular, até destacar os elementos capazes de reivindicar maior grau de generalidade. Ou, sob outra perspectiva, como se ele tentasse refazer o caminho que vai do empírico ao conceitual, da atividade do escritor à formalização do critico, e reconstruir ligações que pareciam ter desaparecido sob o peso de generalizações demasiado abstratas.



Assim, James Wood toma uma questão - por exemplo, a voz do narrador - e sustenta seu argumento invocando casos concretos, isto é, citando trechos mais ou menos extensos de várias obras literárias.



Isso, para o tradutor, coloca uma exigência clara - bastante simples, mas imperiosa. É preciso que a tradução preserve ao máximo possível o nexo que o autor estabelece entre o caso concreto e a formulação teórica, entre as citações literárias e as reflexões de Wood.



Aqui devo explicar um procedimento editorial que vige em algumas casas: é o costume de recorrer a traduções previamente existentes para extrair as citações, ao invés de permitir que o tradutor faça sua própria tradução de tais trechos. No entanto, conforme alertei os editores, este procedimento me parecia inaplicável a "Como funciona a ficção", pelo simples fato de que o elemento destacado por Wood numa determinada citação vinha alterado ou até eliminado em traduções anteriores. Por essa razão, traduzi pessoalmente as centenas de citações feitas por Wood, no esforço de preservar a articulação muito rigorosa e coerente de seus argumentos.



Imagino que a editora tenha considerado minhas alegações insuficientes para justificar uma exceção a suas normas internas, pois preferiu manter o costume de utilizar traduções já disponíveis.* Essa opção, a meu ver, acabou por acarretar alguns prejuízos para a inteligibilidade do texto. De minha parte, entendo que a obra de James Wood constitui uma unidade, e entendo que a edição brasileira acabou se tornando uma colcha de retalhos, em certos momentos beirando a incongruência.



Explico-me. Veja-se, por exemplo, o tópico 12. Wood está tratando do estilo indireto livre, e quer mostrar seu alto grau de flexibilidade. Para isso, toma um longo trecho de Henry James em "What Maisie knew", que começa:



It was on account of these things that mamma got her for such low pay, really for nothing: so much, one day when Mrs Wix had accompanied her into the drawing-room and left her, the child heard one of the ladies she found there ... announce to another.



Foi por causa dessas coisas que mamãe a pegou por um salário tão baixo, realmente por nada: foi o que a menina, num dia em que a sra.Wix tinha entrado com ela na sala de visitas e a deixou, ouviu de uma das damas que lá encontrou ... dizendo a outra.



"Que exemplo de escrita!", exclama Wood. O ponto em questão é a multiplicidade de níveis, o autor que se aproxima e depois se afasta de Maisie. No item 13, Wood comenta que Maisie filtra com sua voz pessoal a visão oficial dos adultos, destacando a frase onde isso se patenteia: "Foi por causa dessas coisas que mamãe a pegou por um salário tão baixo".



No mesmo trecho em que Henry James descreve a afeição de Maisie pela sra. Wix, Wood aponta mais uma passagem onde o autor empresta voz a Maisie, quando a menina compara a sra. Wix à sua ex-governanta, a srta. Overmore:



... on whose loveliness, as she supposed it, the little girl was faintly conscious that one couldn't rest with quite the same tucked-in and kissed-for-good-night feeling.



... em cuja amabilidade, qual ela a imaginava, a menina tinha a tênue consciência de que não seria possível repousar com aquela mesma sensação de ser-ajeitada-na-cama e ganhar-um-beijo-de-boa-noite.



Wood chega a comentar admirado:



Notem que, para deixar Maisie “falar”, James se dispõe a sacrificar sua elegância estilística numa frase como essa.



O autor prossegue e finaliza suas quase cinco páginas de comentário sobre o trecho (incluído um uso de “constrangedoramente” para “embarrassingly” pouco adequado ao contexto). Wood pretende ter demonstrado que Henry James, usando o estilo livre indireto, conseguiu criar diferentes níveis de compreensão com variados graus de identificação com o personagem, ao interpolar frases onde se ouve a voz de Maisie.



É um bloco muito bonito e esclarecedor, além de ilustrar bem o tipo de análise adotado por James Wood. Na decisão editorial, optou-se por utilizar outra tradução, já existente. Mas, numa infeliz coincidência, precisamente as passagens destacadas por Wood, onde James estaria dando voz a Maisie, estavam transpostas para outro registro:



Foi por causa dessas coisas que sua mãe conseguira contratá-la por tão pouco ...

... em cuja beleza a menina tinha a vaga consciência de que não era possível refestelar-se com igual sensação de aconchego e ternura.



Assim, desaparecida a voz de Maisie em mamma e tucked-in and kissed-for-good-night feeling arredondado em "sensação de aconchego e ternura", os comentários de Wood perderam a referência e se tornaram descabidos.



Friso que não pretendo questionar de maneira nenhuma o grande mérito das traduções utilizadas. Julgo-as, de modo geral, excelentes. O que quero destacar é que aqui, neste caso específico, a norma editorial de utilizar traduções prévias sem levar em conta o contexto e a finalidade da citação muitas vezes enfraqueceu - e algumas vezes anulou - os argumentos do próprio autor.



Veja-se outro exemplo.



There were not many patients, and he did not have to wait long, only about three hours.



Não havia muitos pacientes, e ele não precisou esperar muito, apenas umas três horas.



Aqui, no bloco 18, a intenção de Wood é mostrar que a narrativa pode se apresentar como um ponto de vista mais coletivo ("um coro") do que individual, que se expressa no uso do verbo impessoal “haver”, e dá a essa técnica o nome de "estilo indireto livre não identificado". A edição brasileira, porém, adotou uma tradução onde a ênfase recai sobre o personagem individual, com o uso do verbo pessoal “encontrar”, e novamente o argumento de Wood fica girando no vazio:



Encontrou pouca gente na fila e assim não teve de esperar muito, só umas três horas.



Ao comentar que as inovações de Flaubert acabaram se tornando um tanto maneiristas nas mãos de outros escritores, Wood cita Isherwood:



The entrance to the Wassertorstrasse was a big stone archway, a bit of old Berlin, daubed with hammers and sickles and Nazi crosses ... The pavement was chalk-marked for the hopping game called Heaven and Earth. At the end of it ... stood a church.



A entrada da Wassertorstrasse era uma grande arcada de pedras, um pedaço da velha Berlim, emplastrada com foices, martelos e cruzes suásticas ... A calçada estava desenhada a giz com os quadrados da amarelinha, terminando na casa do céu. No final dela ... ficava uma igreja.



Wood quer mostrar a conexão entre essas imagens:



As “cruzes” nazistas permitem um bom ponto de contato com o céu da amarelinha e com a igreja.



Na tradução utilizada, não há referência ao "céu" da amarelinha:



A entrada para a Wassertorstrasse era uma grande arcada de pedra, um pouco da velha Berlim, borrada de foices e martelos e cruzes suásticas ... O calçamento era riscado a giz para a brincadeira de amarelinha. No fim da rua ... ficava uma igreja.



Todavia, apesar de se ter perdido um dos elementos de conexão com o argumento de Wood, encontra-se no bloco seguinte, 37:



As “cruzes” nazistas permitem um bom ponto de contato com a amarelinha infantil, que vai do céu ao inferno, e com a igreja,



onde irrompe de súbito um surpreendente "do céu ao inferno".



No final do bloco 40, Wood comenta a propósito de uma imagem que acabara de citar: "A camponesa com a carta registrada é um pouco 'literária' demais".



... then a peasant woman reached out to him with a certified letter



... então uma camponesa se aproximou dele com uma carta registrada



O leitor pode procurar a imagem no trecho citado; no lugar da camponesa encontrará:



... uma mulher estendeu para ele a mão com uma carta registrada.



Um dos elementos centrais da narrativa literária, para James Wood, é o detalhe, sua concretude, sua tangibilidade. Dá como exemplos, entre outros, "um livro de orçamento doméstico" (a book of household calculations) e um "taco rombudo" (blunt cue) na mesa de bilhar, na casa de Eugênio Onêguin. A edição brasileira se desprende do contexto argumentativo de Wood, utilizando uma tradução com termos mais genéricos: "um diário de contas" e um "velho taco" de bilhar. Evapora-se a "estidade", a thisness de Wood.



Wood cita um trecho de To the Lighthouse, de Virginia Woolf, como exemplo de sutileza literária em apresentar "a complexidade de nossa estrutura moral":



They paused. He wished Andrew could be induced to work harder. He would lose every chance of ascholarship if he didn't. "Oh, scholarships!" she said. Mr Ramsay thought her foolish for saying that about a serious thing like a scholarship. He should be very proud of Andrew if he got a scholarship, he said. She would be just as proud of him if he didn't, she answered. They disagreed always about this, but it didn't matter. She liked him to believe in scholarships, and he liked her to be proud of Andrew whatever he did.



Fizeram uma pausa. Ele gostaria que Andrew se dispusesse a trabalhar com mais afinco. Do contrário perderia qualquer oportunidade de ter uma bolsa de estudos. “Oh, bolsas!”, disse ela. O sr. Ramsay achou uma tolice ela dizer uma coisa dessas sobre algo tão importante como uma bolsa de estudos. Ficaria muito orgulhoso se Andrew ganhasse uma bolsa, disse ele. Ficaria também muito orgulhosa se não ganhasse, respondeu ela. Eles sempre discordavam sobre o tema, mas não fazia mal. Ela gostava que ele acreditasse em bolsas de estudo, e ele gostava que ela se orgulhasse de Andrew, em qualquer circunstância.



Wood assinala que, se a obra de Woolf é tão comovente, em parte é porque apresenta os atritos e pequenas concessões do cotidiano de um casal. Mas aqui também as observações de Wood perdem força, visto que na tradução utilizada faltam algumas frases, especialmente aquelas com que o marido se opõe à esposa:



Houve uma pausa. Ele gostaria que fosse possível convencer Andrew a estudar mais. Perderia todas as oportunidades de ganhar uma bolsa de estudos. Mas ela ficaria orgulhosa com ele do mesmo jeito se não ganhasse. Eles sempre discordaram a esse respeito. Ela gostava dele por ele acreditar em bolsas de estudo, e ele gostava dela por ela se orgulhar de Andrew no que quer que fizesse.



Wood aborda o tema do diálogo, concordando com Henry Green que um diálogo deve portar múltiplos sentidos e deve significar várias coisas para vários leitores diferentes. E então se estende sobre um diálogo em "A House for Mr Biswa"s, de Naipaul. Wood quer mostrar que Naipaul marca a diferença entre os dois interlocutores e suas respectivas posições sociais utilizando sutilmente o patoá de Trinidad, e destaca como exemplo:



But Rome get build.



Mas Roma tá construída.



Na tradução adotada, tem-se:



Mas um dia teve que se fazer,



o que não parece propriamente corresponder ao argumento de Wood.



Eu poderia multiplicar os exemplos, mas creio que estes são suficientes.



Quero ressaltar que, naturalmente, minhas traduções não estão isentas de falhas e sempre podem ser revistas, buriladas, melhoradas: nisso eu seria a primeira a agradecer um diálogo com os editores, a fim de aprimorá-las.



Mas aqui a questão é outra: o cerne, a própria matéria-prima de reflexão em "How Fiction Works" aparece em "Como funciona a ficção" como uma montagem mais ou menos desconexa de trechos de diferentes tradutores, sem muito cuidado editorial em avaliar se as soluções eram cabíveis no contexto da análise de James Wood.



Não me sinto à vontade para assumir a responsabilidade de tradução em "Como funciona a ficção", pois entendo que a edição destoa em razoável medida do projeto desenvolvido em "How Fiction Works", obra unitária dotada de coerência entre suas partes.



Se não fosse esperar demais, eu tomaria como sinal de grande seriedade editorial se a Cosac Naify substituísse essa edição por uma edição mais condizente com a qualidade do original, o empenho da tradução e a expectativa dos leitores.



* Uma nota do editor à p. 213 da edição brasileira, na bibliografia, especifica: "As traduções das citações feitas por James Wood foram extraídas das edições indicadas aqui, e em alguns poucos casos foram adaptadas conforme necessidade do texto de Wood. [N.E.]".