Nao sei ate quando vao me deixar postar esses artigos de jornais, portanto, aproveitem!
O texto tem uma otima entrevista com o autor do livro sobre o nosso K.
O EROS DO PROCESSO
AUTOR DA BIOGRAFIA "OS ANOS DO CONHECIMENTO", O ALEMÃO REINER STACH FALA DA RELAÇÃO "PROBLEMÁTICA" DE KAFKA COM OS JUDEUS E DE SUA VISÃO DA MULHER COMO MEDIADORA DA JUSTIÇA
A fascinação por Kafka decorre do fato de que ele formulou a experiência humana em seu nível mais fundamental e instintivo
Reprodução/"Excavating Kafka"
Kafka (dir.) na praia, em julho de 1914JOSÉ GALISI FILHOCOLABORAÇÃO PARA A FOLHA,DE HANNOVER (ALEMANHA)
Numa conferência pronunciada no Fórum Cultural Austríaco em 28/ 4/04, intitulada "O Fim das Lendas", o biógrafo de Franz Kafka (1883-1924) Reiner Stach dizia: "Não preciso apontar o enorme abismo entre aquilo que o nome de Kafka significava duas gerações atrás e o que representa hoje. Kafka era, nos anos 1960, uma supernova literária, seu trabalho era discutido com paixão e até mesmo se tornou uma fonte de esperança política"."Hoje, em contrapartida, Kafka é uma estrela, uma espécie de figura pop. Os originais escritos com sua caneta se tornaram objeto de culto, cuja propriedade poucos podem se permitir. Surgiu até mesmo uma espécie de turismo literário em todos os lugares que freqüentou, cercados por uma aura que quase nada mais tem a ver com o nome do indivíduo histórico e representam muito mais um conceito, uma marca comparável às de Mozart, Einstein ou Marilyn Monroe."Há mais de 13 anos, Stach se ocupa pacientemente em desmontar as lendas do edifício literário desse clássico moderno.E o segundo volume de sua enorme biografia, "Die Jahre der Erkenntnis" (Os Anos do Conhecimento, ed. Fischer, 726 págs., 29,90, R$ 73), concentra-se na fase final da carreira do autor, entre 1915 e 1924, marcada pela doença, pela guerra e pelo desmoronamento de suas relações."A guerra arruinou sua vida", reconhece. Mas, em contrapartida, a experiência profissional direta de Kafka -ele trabalhou com seguros à época- com a nova dimensão tecnológica do conflito, a guerra total com armas químicas e a legião de mutilados a ser administrada pelos Estados-maiores no front doméstico se transfigurou, em sua escrita, em uma opção pela parábola e por um depuramento formal extremos.Para Stach, Kafka foi, de fato, o único escritor do idioma alemão à época a perceber a essência do mundo administrado emergente.Sua biografia pode ser lida como um romance em aberto, no qual nos confrontamos com todas as virtualidades de decisão que não se tornaram realidade na vida de Kafka.De Hamburgo, o autor concedeu uma entrevista à Folha, de que seguem abaixo os melhores trechos.
FOLHA - Uma das principais lendas desconstruídas em sua biografia é a de que Kafka teria se recolhido a um mundo de fantasias privadas, enquanto a velha Europa desmoronava sob a Primeira Guerra. De que modo a experiência da guerra se espelha em sua obra?REINER STACH - Kafka não escreveu nenhum texto tematizando diretamente a guerra, nenhuma narração em que a guerra seja pano de fundo. Proliferou, depois da guerra, uma "literatura de trincheiras" dos retornados do front, mas ele não podia [escrever isso], pois não viveu a guerra como soldado.Essa experiência se espelha na forma, não no plano temático. Até 1916 seus textos apresentavam uma dimensão lúdica, um gozo na construção de situações fantásticas, ele jogava com a literatura, como em "A Metamorfose", por exemplo.Vemos aí um enorme prazer na narrativa de uma situação absurda, na exploração e na construção diferenciada de uma lógica fantasmagórica até seus limites. Ele procurava, por assim dizer, desdobrar essa fantasia inicial em todas as suas possibilidades.A guerra lhe tirou esse prazer lúdico da literatura. Até a escrita de "O Castelo", ainda irão transcorrer oito anos de intervalo, mas não vemos mais nesse período nenhuma cena construída, apenas parábolas curtas. Kafka deixa de ser um "narrador": torna-se escritor, mas não mais um narrador.
FOLHA - Seria possível afirmar que essa "nova aparição", esses homens mutilados com membros protéticos, já constitui, em si, a caricatura de um ser humano e que a opção pela parábola parte de uma imagem real, que em si já é uma redução?STACH - Sim, mas o que é mais importante é que não se trata, nesse contexto, do destino individual, mas sim coletivo, das massas emergentes, derivado da nova relação com a máquina.A máquina torna-se mais importante que o indivíduo.Essa relação se alterou para sempre com o emprego de armas químicas, com as novas linhas de produção e com a simbiose entre o front doméstico e o campo de batalha na "mobilização total" de recursos humanos e materiais.Surge, na época, o novo conceito da "batalha de material".A superioridade do material decide a guerra -esse era o ditado. Havia até o conceito de "homem-material". Os homens se tornam apenas uma engrenagem, entre muitos outros recursos, numa luta industrial. Kafka experimentou as conseqüências desse estranhamento completo em sua profissão, todos os dias. Ele foi o único escritor em língua alemã, à época, que viu esse processo.Em outras palavras, eles não viram, como Kafka, a guerra na sua dimensão "administrada".Outros escritores, como Egon Kirsch, viveram a experiência do front, mas enxergavam apenas uma parte desse novo maquinário e não seu lado decisivo: o front doméstico.Kafka era amigo de Kirsch, que vivenciou massacres terríveis no front, mas não dispunha de um conceito de que a guerra se transformara radicalmente na administração das massas civis, com a participação, na retaguarda, de mulheres e escritórios de administração de apólices de seguros.Daí surgiu também o conceito de guerra total, depois operacionalizado pelos nazistas.Nesse sentido, não se trata de fantasias pessoais, embora a lenda afirme que Kafka era um neurótico que padecia de fantasias compulsivas e perdera o contato com a realidade.Trata-se de uma perversão pública, e não privada. Ele compreendeu a guerra não como flagelo, mas como perversão coletiva, uma perversão real, organizada e administrada.
FOLHA - A que conhecimento o sr. se refere no título de seu novo livro?STACH - Até a Primeira Guerra, o conhecimento não era provavelmente o mais importante para Kafka, mas sim a tomada de decisões corretas: casar, constituir família ou tornar-se escritor e deixar o emprego.E essas opções, que estavam em aberto até 1914, foram se reduzindo, não apenas em razão da eclosão da guerra, mas também da doença [Kafka morreu de tuberculose].Houve nesse entretempo uma fase em que ele não escreveu muito, entre 1915 e 1916.Então, a partir do final de 1917, delineia-se em seu percurso uma outra forma de literatura. Seus textos tornam-se cada vez mais abstratos e parabólicos e visam, em sua concisão extrema, uma certa forma de conhecimento, que ele atinge entre os anos de 1917 e 1919: a constatação de que tem de viver com o que lhe sobrou.Não há mais sentido em forjar novas opões, mas sim em fazer o balanço daquele saldo e viver com uma certa dignidade.Esse conhecimento significa que, em outras palavras, ele precisa de uma atitude estóica, uma atitude transfigurada em seus textos, como um ponto alto da forma que é o romance inacabado "O Castelo".Trata-se de um "estoicismo da forma", uma clareza que decorre não da resignação ou do desespero, mas do realismo sobre as opções ainda disponíveis. Pode-se falar das próprias perdas sem desespero.
FOLHA - O sr. cita no início do livro o ensaio de Cynthia Ozick "The Impossibility of Being Kafka" (A Impossibilidade de Ser Kafka). Não haveria uma contradição entre sua pretensão literária de escrever uma biografia romanceada, que presentifica e mergulha em cada cena dessa vida?STACH - Toda biografia que pretenda abranger substancialmente seu objeto não pode deixar de ter uma pretensão literária. Nenhuma biografia cronológica pode ser bem-sucedida.Não se pode, como biógrafo, descrever a vida de alguém como se fosse um encadeamento causal.Quando retrato Kafka numa determinada passagem de sua vida, tenho de incluir todas as possibilidades sobre como ele poderia ter tomado determinada decisão. Caso contrário, não se entende a decisão.Faço uma analogia: se você tiver de descrever como jornalista uma audiência e descrever apenas o que foi dito pelo acusado ou pelo juiz, os leitores não entenderão o que se passou, pois não conhecem as regras processuais.Quando o acusado afirma algo, é preciso levar em conta quais outras opções ele dispunha naquela dada situação processual. Sem essas opções, não há como avaliar o procedimento da defesa.
FOLHA - A relação de medo e prazer com a herança judaica em Kafka é extremamente complexa.STACH - O problema é que Kafka se sentia extremamente atraído pela cultura e pela identidade judaicas, mas a relação com os judeus reais que conhecia, a maioria em Praga, é problemática -até os desprezava. Numa carta, afirma: "É tenebroso sempre precisar da polícia para fazer valer seus interesses". Ele sempre se expressou de maneira agressiva contra os judeus que não sabiam o que queriam e sempre chamavam a polícia quando se sentiam ameaçados, definindo-se como vítimas.Quando falo em vítima, falo no sentido negativo da vítima.Ele imaginava, com o sionismo, uma definição positiva da identidade judaica.Mas não existe nenhuma passagem em que se queixe do anti-semitismo -algo como "nós, os judeus, somos sempre perseguidos"-, mas há muitas passagens em que se refere de maneira extremamente desabonadora aos próprios judeus que se definem como vítimas e que procuram tirar partido disso. Ele tinha nojo dessa atitude.É muito difícil, depois do Holocausto, contextualizar essa posição, mas Kafka não podia imaginar a dimensão que o anti-semitismo organizado atingiria na década seguinte.Que o anti-semitismo existisse, isso lhe parecia evidente, mas, para ele, se tratava de restabelecer a dignidade.Kafka gostaria que os judeus reconquistassem a própria iniciativa, e isso lhe parecia o ponto central do movimento sionista. Mas também ironizava sua ideologização e, sobretudo, as disputas internas.
FOLHA - A guerra cortou o contato de Kafka com sua noiva, Felice Bauer, mas o sr. lança um novo olhar sobre esse relacionamento...STACH - O que pude conseguir a partir do contato com a família é que Felice Bauer, na verdade, omitiu e silenciou para Kafka muitas informações decisivas sobre sua família, para protegê-la dele.Certamente, ela não tinha nenhuma confiança em Kafka.A história da família dela era um catálogo de catástrofes.Havia na família uma irmã com um filho ilegítimo que teve de ser escondido da avó.Felice tinha um irmão que roubara a firma em que trabalhara e, para não terminar na cadeia, teve de fugir para os Estados Unidos.Ela pagou a fuga com o dinheiro aparentemente destinado ao casamento com Kafka.Pagou a passagem e ainda enviou dinheiro -na verdade, quase todas as suas economias.Ele percebeu, é claro, que ela lhe escondia muitos detalhes, mas, cada vez que ele perguntava sobre isso, ela silenciava ou lançava mão de subterfúgios.Ela simplesmente mentia, e Kafka não conseguia compreender. Ele lhe dizia: "Você pode enganar seus pais, mas não a mim".É interessante em sua obra o papel das mulheres como instâncias mediadoras da Justiça, como em "O Processo", em que são passagens ou portas entre as várias instâncias, dizem meias-verdades. Nesse romance, Kafka erotizou o próprio processo.
FOLHA - O sr. compara a imaginação de Kafka a um "cinema permanente". O que significa isso?STACH - Essa imaginação cinematográfica você encontrará em muitas passagens como, por exemplo, na "Carta ao Pai": "Seria como se você ocupasse todo o mundo com seu corpo e sobrassem para mim apenas os espaços que ele não sombreia".Há aqui uma típica fantasmagoria, não do menino, mas do adulto Kafka. Ele quer dizer algo de importante, mas encontra apenas uma imagem -uma imagem muito boa, por sinal.Esse é um exemplo da maneira como ele pensa com imagens. Vemos também nos "Diários" como pensava intensivamente com imagens elegantes.São metáforas que reaparecem nos romances e parábolas.Kafka tinha que lutar constantemente com esse fluxo de imagens -o que também era um fardo.Ele mesmo escreveu nos "Diários": "Tudo me faz pensar imediatamente". Se observa alguém na rua, esse instantâneo se desdobra numa reflexão de meia hora: como é sua família, como a pessoa se comportaria ao retornar para casa etc.
FOLHA - Para dizer com Adorno, ele fixa aquele momento mimético pré-discursivo da linguagem -o gesto?STACH - Sim, o gesto é decisivo na linguagem. Ele descreveu o encontro com várias pessoas antes da guerra em seus "Diários", em um contexto em que não usa palavras, mas apenas a pantomima.Ele descreve um encontro com Max Brod, em que este abotoa e desabotoa o paletó de tão nervoso, e como os judeus orientais encantavam as mulheres, mas não há nenhum conteúdo discursivo.
FOLHA - O conjunto do legado privado de Max Brod ainda não é totalmente acessível. Quais foram suas dificuldades com esse material?STACH - É uma história complicada. Ele é muito vasto, entre 15 mil e 20 mil cartas, não apenas endereçadas a Kafka, mas a interlocutores famosos, como escritores, jornalistas etc.Existem também diários não publicados e alguns cadernos de notas que datam de 1901, antes que ele conhecesse Kafka, e um outro caderno já a partir do início da relação, no qual provavelmente se encontrem muitas informações inéditas da fase juvenil de Kafka.Na verdade, seu legado está dividido entre Zurique [na Suíça] e Tel Aviv [em Israel].O problema é que todos os documentos em Tel Aviv se encontram numa residência particular há décadas, e os herdeiros desejam vendê-lo, mas o Arquivo Nacional de Jerusalém se pronunciou para que não deixem Israel.O Arquivo Nacional de Marbach [Alemanha] mostrou também interesse em adquirir parte do arquivo. Isso poderá se transformar numa disputa judicial, mas até agora esse legado de propriedade particular, depositado num quarto repleto de papéis em Tel Aviv, está indisponível.
FOLHA - O que é verdadeiro na lenda de que Kafka pretendia destinar todos seus escritos ao fogo? STACH - É uma meia verdade.Há duas folhas nas quais Kafka solicita que os textos inacabados em suas gavetas fossem incinerados.E, na medida do possível, Brod deveria recuperar as cartas que estavam com Felice e outras pessoas. Mas trata-se apenas dos documentos privados e dos fragmentos.Kafka não levantava nenhuma objeção aos textos já publicados, como, por exemplo, o último volume de "O Artista da Fome" -ele desejava que fosse publicado de qualquer maneira. O testamento refere-se apenas aos textos inacabados. E Brod retrucou, dizendo que não poderia fazer isso.
FOLHA - O que permaneceria, além das lendas, como o traço mais moderno e realista de sua obra?STACH - A administração das massas. Com a web, os governos passam a acumular cada vez mais dados privados em tempo real. É uma forma de controle jamais imaginada antes. A fascinação por Kafka decorre do fato de que ele formulou a experiência humana em seu nível mais fundamental e instintivo.Foi uma experiência que superou desde o início os limites da língua alemã até se tornar um lugar-comum da condição absurda moderna, do estar entregue a mecanismos de controle invisíveis.Os movimentos especulativos da Bolsas nos mostram todos os dias, com uma clareza assombrosa, como decisões baseadas em detalhes aparentemente racionais potencializam uma reação irracional.O acesso e o acúmulo de dados privados dos cidadãos podem ser justificados pelos governos como decisões racionais, mas a soma dessas decisões leva a uma rede fora de controle até dos próprios governos e que se volta contra seu controle.
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terça-feira, 31 de março de 2009
Instituto Moreira Salles lança revista de ensaios
so um recadinho, volto a postar resenhas ate sexta.
Instituto Moreira Salles lança revista de ensaios
Destaque da 1ª "Serrote" são os inéditos de Saul Steinberg, ilustrador da "New Yorker' Quadrimestral, publicação estreia com ensaio de Carlo Ginzburg, fotos de Gautherot e carta inédita de Mário de Andrade a Otto Lara Resende EDUARDO SIMÕESDA REPORTAGEM LOCAL O Instituto Moreira Salles chega à maioridade buscando mais visibilidade para o acervo acumulado em 18 anos e maior aproximação com o público. Uma das primeiras empreitadas é o lançamento da "Serrote" (R$ 29,90; 224 págs.), revista quadrimestral de ensaios, em formato de livro, e desde anteontem nas livrarias."É um modo de o instituto contribuir com a circulação de ideias, numa revista de ensaios de figurino anglo-saxão, comprometida com a clareza, sem os ritos acadêmicos", diz Flávio Pinheiro, que está na comissão editorial ao lado de Matinas Suzuki Jr., Rodrigo Lacerda, Samuel Titan Jr. e Daniel Trench, autor do projeto gráfico.Ainda segundo Pinheiro, a "Serrote" privilegia não só o texto, mas também as imagens, com edições bem ilustradas, diferente de publicações tradicionais brasileiras como a extinta "Argumento" ou a revista do Cebrap. O primeiro número, por exemplo, traz desenhos de Saul Steinberg (1914-1999), célebre cartunista e ilustrador da "New Yorker", acompanhados de análise de Rodrigo Naves."É o carro alegórico do primeiro número. Um conjunto formidável de 20 desenhos inéditos, de um caderno feito em 1954", diz Pinheiro.BatismoEm busca de um nome para a revista, Pinheiro conta, bem-humorado, que palavras ligadas a ensaio soavam pernósticas ou sérias demais. "Pensamos em usar simplesmente "Ensaio", mas a palavra no Brasil tem a conotação teatral ou ligada a escolas de samba", diz.O batismo acabou sendo feito por Matinas, levemente inspirado em poema do livro "Poliedro", de Murilo Mendes (1901-1975), que diz: "Tremo quando examino o serrote". "Lembra a tradição de revistas literárias com nomes mais humorísticos, como "O Malho'", diz Matinas.O acervo do instituto aparece na revista em dois achados: fotos que o francês Marcel Gautherot (1910-1996) tirou de Pancetti (1902-1958) fazendo pinturas em vidro. E uma carta inédita, de 1944, de Mário de Andrade para Otto Lara Resende. "Foi feita depois de uma visita de Mário a Belo Horizonte e traz comentários dele sobre a então jovem turma de escritores mineiros", conta Rodrigo Lacerda, que encontrou a carta.Outro texto inédito é "David, Marat", ensaio do historiador italiano Carlo Ginzburg, fruto de palestra que ele deu em Bolonha, Paris e em Passo Fundo, e que será publicado na Itália em 2010. "Ele usa um quadro para falar das relações entre política e religião, algo que poderia parecer puramente acadêmico. É um jeito de pensar o presente e que aparece aqui ricamente ilustrado", diz Titan.A única seção fixa será o "alfabeto serrote", em que um convidado explica um verbete. Na estreia, Chico Alvim fala de "serrote", Antonio Cicero, de "verso" , e Tostão, chamado para definir "drible", acabou com "passe". "É mais importante", disse o ex-jogador a Matinas.
Instituto Moreira Salles lança revista de ensaios
Destaque da 1ª "Serrote" são os inéditos de Saul Steinberg, ilustrador da "New Yorker' Quadrimestral, publicação estreia com ensaio de Carlo Ginzburg, fotos de Gautherot e carta inédita de Mário de Andrade a Otto Lara Resende EDUARDO SIMÕESDA REPORTAGEM LOCAL O Instituto Moreira Salles chega à maioridade buscando mais visibilidade para o acervo acumulado em 18 anos e maior aproximação com o público. Uma das primeiras empreitadas é o lançamento da "Serrote" (R$ 29,90; 224 págs.), revista quadrimestral de ensaios, em formato de livro, e desde anteontem nas livrarias."É um modo de o instituto contribuir com a circulação de ideias, numa revista de ensaios de figurino anglo-saxão, comprometida com a clareza, sem os ritos acadêmicos", diz Flávio Pinheiro, que está na comissão editorial ao lado de Matinas Suzuki Jr., Rodrigo Lacerda, Samuel Titan Jr. e Daniel Trench, autor do projeto gráfico.Ainda segundo Pinheiro, a "Serrote" privilegia não só o texto, mas também as imagens, com edições bem ilustradas, diferente de publicações tradicionais brasileiras como a extinta "Argumento" ou a revista do Cebrap. O primeiro número, por exemplo, traz desenhos de Saul Steinberg (1914-1999), célebre cartunista e ilustrador da "New Yorker", acompanhados de análise de Rodrigo Naves."É o carro alegórico do primeiro número. Um conjunto formidável de 20 desenhos inéditos, de um caderno feito em 1954", diz Pinheiro.BatismoEm busca de um nome para a revista, Pinheiro conta, bem-humorado, que palavras ligadas a ensaio soavam pernósticas ou sérias demais. "Pensamos em usar simplesmente "Ensaio", mas a palavra no Brasil tem a conotação teatral ou ligada a escolas de samba", diz.O batismo acabou sendo feito por Matinas, levemente inspirado em poema do livro "Poliedro", de Murilo Mendes (1901-1975), que diz: "Tremo quando examino o serrote". "Lembra a tradição de revistas literárias com nomes mais humorísticos, como "O Malho'", diz Matinas.O acervo do instituto aparece na revista em dois achados: fotos que o francês Marcel Gautherot (1910-1996) tirou de Pancetti (1902-1958) fazendo pinturas em vidro. E uma carta inédita, de 1944, de Mário de Andrade para Otto Lara Resende. "Foi feita depois de uma visita de Mário a Belo Horizonte e traz comentários dele sobre a então jovem turma de escritores mineiros", conta Rodrigo Lacerda, que encontrou a carta.Outro texto inédito é "David, Marat", ensaio do historiador italiano Carlo Ginzburg, fruto de palestra que ele deu em Bolonha, Paris e em Passo Fundo, e que será publicado na Itália em 2010. "Ele usa um quadro para falar das relações entre política e religião, algo que poderia parecer puramente acadêmico. É um jeito de pensar o presente e que aparece aqui ricamente ilustrado", diz Titan.A única seção fixa será o "alfabeto serrote", em que um convidado explica um verbete. Na estreia, Chico Alvim fala de "serrote", Antonio Cicero, de "verso" , e Tostão, chamado para definir "drible", acabou com "passe". "É mais importante", disse o ex-jogador a Matinas.
sexta-feira, 30 de maio de 2008
As Lagrimas de Saramago

Uma imagem para a historia da literatura.
Nesses últimos dias pessoas do mundo todo entre fãs, leitores e adimiradores do
grande escritor José de Souza, mais conhecido como José Saramago, foram presenteados
com um video no You Tube revelando reações emocionadas do escritor e do diretor Fernando
Meireles no final da exibiçao de "Blindness", adaptaçao do formidavél "Ensaio Sobre Cegueira".
Para leitores inveterados de Saramago, como nos, aquela imagem foi sublime. O silencio
apreensivo pairando no ar e, derrepente, uma lágrima vazada do rosto desse senhor, seguida
de um carinhoso beijo em sua testa por um Meireles aliviado e , também, emocionado.
Essa imagem é também, para todos que conhecem o temperamento do velhinho, surpreedente
pois, Saramago costuma ser um homem serio e reservado, deixa a emotividade para os
"Marketeiros da Escrita". Isso nao quer dizer que ele nao tenha senso de humor, com tiradas sutis,
já deixou muitos em situaçao de ridículo.
Em uma de suas visitas ao Brasil, foi a um colégio de classe media alta em Pinheiros chamado, se
me lembro bem, Santa Cruz. Iria fazer uma breve leitura do seu mais recente livro, Homen Duplicado, depois
autografaria os livros. Fui até ele, como todo mundo, passei pela fila de autografos mas, por um momento,
fui ao banheiro e ao voltar, ele achou que eu havia cortado fila;
" Oras, tens que pegar fila como os outros!" a menina que estava ao meu lado logo preciptou a falar em meu favor, mais aliviado pude pergunta-lhe algumas
coisas enquanto autografava meus livros e, veja só, consegui tira até foto com o célere homem!
Ensaio Sobre a Cegueira foi o o segundo livro de Saramago que li, vinha de muito boa impressao do livro anterior
Todos os Nomes, uma obra muito inventiva, com que para min permeada de ecos Kafkianos.
Mas Ensaio..., foi um choque!
Um livro monumental e original, sua trama de digressoes extenças e sem pontuaçao era difrente de tudo
oque eu tinha lido. Nao que eu desconhecesse, Woolf, Faulkner, Mann, Nabokov ou Joyce.
Mas aquilo era um primor!
coisas enquanto autografava meus livros e, veja só, consegui tira até foto com o célere homem!
Ensaio Sobre a Cegueira foi o o segundo livro de Saramago que li, vinha de muito boa impressao do livro anterior
Todos os Nomes, uma obra muito inventiva, com que para min permeada de ecos Kafkianos.
Mas Ensaio..., foi um choque!
Um livro monumental e original, sua trama de digressoes extenças e sem pontuaçao era difrente de tudo
oque eu tinha lido. Nao que eu desconhecesse, Woolf, Faulkner, Mann, Nabokov ou Joyce.
Mas aquilo era um primor!
Em 9 de Agosto de 1995, Saramago escre em seu diario ( Cadernos de Lanzarote 1 vol) que terminara
no dia anterior Ensaio...
"Quasse quatro anos após o surgimento da ideia, ocorrido no dia 6 de setembro de de1991, quando, sozinho
almoçava no restaurante Varina da Madragoa, do meu amigo antonio Oliveira.
Exatamente tres anos e tres meses depois em 6 de Dezembro de 1994, anotava no mesmo caderno que
decorrido todo esse tempo, nem cinquenta paginas tinha ainda conseguido escrever: viajara, fui operado de catarata... E lutei , só eu sei quanto, as dúvidas, as perpelexidades, os equivocos que a toda hora se me
iam atravessando na historia e me paralisando. Como ne nao fosse o bastante, desesperava-me o proprio horror
do que ia narrando. Enfim acabou, ja nao terei de sofrer mais "
Saramago vai deizer que da ideia original ficou" tudo e quase nada" e que escreveu o que queria, mas nao
escreveu como tinha pensado.
Ainda assim, o livro tornou-se uma narrativa extraordinária de um escritor com dominio total de suas arte, um homen que se fez aos poucos, que decidiu calar-se por muitos anos e so voltar quando tivesse algo a dizer.( ah! se todos fossem iguais a voce!)
A historia de uma cegueira branca, a cegueira que, ao contrário de esconder, revela mais que a visão plena. Poucas vezes a barbarie humana, seu egoismo e violencia foram tao bem explicitadas em um romance.
Saramago criou nessa " Fábula Contemporanea" uma inversão da nossas impressões para mostrar-nos como
realmente somos.
Quando os olhos se fecham para o humano, para o outro, ai então, temos a cegueira de verdade, a total miopia
do homen.
A historia de uma cegueira branca, a cegueira que, ao contrário de esconder, revela mais que a visão plena. Poucas vezes a barbarie humana, seu egoismo e violencia foram tao bem explicitadas em um romance.
Saramago criou nessa " Fábula Contemporanea" uma inversão da nossas impressões para mostrar-nos como
realmente somos.
Quando os olhos se fecham para o humano, para o outro, ai então, temos a cegueira de verdade, a total miopia
do homen.
quinta-feira, 22 de maio de 2008
EU SOU A HISTORIA, Sobre testemunhos Pessoais
QUE HISTÓRIA É ESSA?
Depender de relatos pessoais para construir parte da história de um pais pode ser considerado um registro legítimo de acontecimentos fatuais. Essa é uma questão delicada para as ciências humanas na pós-modernidade e motivo de controvérsia entre historiadores, antropólogos e críticos literários. Há motivos para apontar os limites do poder desses depoimentos, muito embora isso seja fazer papel de estraga-prazeres. Mesmo assim, escolhi abordar o assunto e andar sobre brasas
Falo aqui do excelente Tempo Passado, da socióloga Beatriz Sarlo, uma das mais importantes intelectuais vivas da Argentina. No livro ela critica a importância que se tem dado ultimamente ao relato em primeira pessoa, tanto por parte da imprensa como da comunidade acadêmica. O assunto sempre me interessou e, sem dúvida, é de grande importância para todos que queremos pensar a cultura em todas as suas dimensões e implicações.
Segundo Sarlo, a autoridade que o testemunho vem ganhando dentro desse preocesso que ela chama de “guinada subjetiva” diminui a importância do debate teórico e da necessidade de cruzar versões para que se possa chegar próximo da realidade. Vivemos uma época em que a primeira pessoa reclama para si uma legitimidade e uma verdade, sustentadas pela idéia de que aquele que viveu determinado acontecimento está, simplesmente por esse fato, em uma posição privilegiada para narrá-lo. É a época do depoimento. É notável como essa visão se reproduz nos programas de TV; dos noticiários aos programas de auditório, e até em jornais com grande projeção, testemunhos pessoais dos mais variados e sobre os mais diversos assuntos são indispensáveis para dar força à noticia.
Já na academia, a história oral tomou grande impulso nas últimas duas décadas, ajudada pelo movimento pós-moderno, que criticou fortemente a autoridade documental, e transformou-se em uma linha de pesquisa bem estabelecida entra historiadores. Por outro lado, a historiografia produzida pela Universidade vem perdendo influência na sociedade por não querer responder a uma história mais comercial, que se torna cada vez mais popular por meio da proliferação de best-sellers pseudo-históricos e com grandes exposições temáticas. Cabe aqui uma breve análise de como essa perda de público deu força à banalização (se podemos usar esse termo) da história.
Mesmo não sendo um exemplo de relato pessoal, o Código da Vinci ilustra bem esse anseio pela simplificação fácil de temas históricos. Como todo mundo sabe, ele conta a história do suposto segredo, guardado a sete chaves pela Igreja, de que Jesus teria gerado filhos com Maria Madalena, dando origem a uma linhagem sagrada. O autor chegou a afirmar que se baseou em documentos de época e relatos apócrifos anônimos para escrever o livro – embora qualquer pessoa bem informada, não necessariamente um acadêmico, saiba que a obra não passa de um romance sensacionalista com algumas referências históricas.
É claro, porém, que a razão para esse desinteresse por obras sérias de história, baseadas em documentação confiável e análise critica das fontes, feitas por acadêmicos honestos, não é apenas a preguiça intelectual de encarar um livro mais árduo. Penso que isso se deve à dificuldade que os historiadores profissionais têm para escrever uma história que seja ativa e de interesse entre a população. Além disso, já vai o tempo em que, influenciadas pelas grandes crônicas nacionais escritas por romancistas, a historiografia primava pela narrativa inspirada, gerando assim grande interesse. É importante notar que a história bem escrita e que se beneficia da narrativa não é necessariamente sensacionalista e de puro entretenimento.
Ironicamente, já há anos, e influenciados pela antropologia, o olhar de muitos historiadores deslocou-se para a vida cotidiana de pessoas normais e cidadãos sem grandes feitos históricos. Dentre eles um em especial, pelo qual tenho grande admiração, escreveu a história de um moleiro italiano, chamado Menochio, que passou pelo Tribunal da Inquisição. Em seu depoimento extraordinário, Menochio desconcertou a todos ao explicitar sua tese de que o mundo era um enorme queijo; de que este pequeno cosmos seria a morada de vermes que dariam sentido ao Todo; e de que esses vermes seriam os homens. Sem dúvida, uma explicação diferente de tudo o que os inquisidores já tinham ouvido. Essa obra muito conhecida, O Queijo e os Vermes, de Carlo Ginsburg, foi um grande sucesso de vendas, traduzido em diversas linuas, mostrando que livros de historia com qualidade podem ter um bom público.
Retomando a questão específica da hipervalorizaçao do relato pessoal e da criação de uma “indústria cultural da memória”, podemos reparar que elas se tornam problemas maiores quando a única fonte que resta são os depoimentos, como no caso da Argentina do período da ditadura. Nesse caso eles foram fundamentais para provar os crimes do Estado, dando uma dimensão jurídica do testemunho pessoal, que não pode ser substituído. É praticamente a única coisa de que se dispõe para julgar e condenar os culpados pelas torturas e mortes. Nesses casos específicos não há discussão.
O que precisamos estar atentos, talvez, é para o fato de que simplesmente confiar no relato pessoal – como se todo o século XX, de Freud a Derrida, não tivesse sido precisamente uma época de critica da experiência – é um erro. Não há relação direta entre fato e recordação. Mas, ao que parece, muitos de nós, entre eles intelectuais e artistas, não se deram conta disso, e continuam vivendo sob a super-estimaçao da vivência pessoal, esse engano que não deixa de ser uma certa vaidade, e que foi chamado por Richard Sennett, em seu clássico O Declínio do Homem Público, de “ditadura da intimidade”. Em resumo, o testemunho traz uma carga do presente que deve ser contrastada com outras fontes, escritas ou não, e que permitam submetê-lo à crítica.
Jimmy Brandon Ávila
Depender de relatos pessoais para construir parte da história de um pais pode ser considerado um registro legítimo de acontecimentos fatuais. Essa é uma questão delicada para as ciências humanas na pós-modernidade e motivo de controvérsia entre historiadores, antropólogos e críticos literários. Há motivos para apontar os limites do poder desses depoimentos, muito embora isso seja fazer papel de estraga-prazeres. Mesmo assim, escolhi abordar o assunto e andar sobre brasas
Falo aqui do excelente Tempo Passado, da socióloga Beatriz Sarlo, uma das mais importantes intelectuais vivas da Argentina. No livro ela critica a importância que se tem dado ultimamente ao relato em primeira pessoa, tanto por parte da imprensa como da comunidade acadêmica. O assunto sempre me interessou e, sem dúvida, é de grande importância para todos que queremos pensar a cultura em todas as suas dimensões e implicações.
Segundo Sarlo, a autoridade que o testemunho vem ganhando dentro desse preocesso que ela chama de “guinada subjetiva” diminui a importância do debate teórico e da necessidade de cruzar versões para que se possa chegar próximo da realidade. Vivemos uma época em que a primeira pessoa reclama para si uma legitimidade e uma verdade, sustentadas pela idéia de que aquele que viveu determinado acontecimento está, simplesmente por esse fato, em uma posição privilegiada para narrá-lo. É a época do depoimento. É notável como essa visão se reproduz nos programas de TV; dos noticiários aos programas de auditório, e até em jornais com grande projeção, testemunhos pessoais dos mais variados e sobre os mais diversos assuntos são indispensáveis para dar força à noticia.
Já na academia, a história oral tomou grande impulso nas últimas duas décadas, ajudada pelo movimento pós-moderno, que criticou fortemente a autoridade documental, e transformou-se em uma linha de pesquisa bem estabelecida entra historiadores. Por outro lado, a historiografia produzida pela Universidade vem perdendo influência na sociedade por não querer responder a uma história mais comercial, que se torna cada vez mais popular por meio da proliferação de best-sellers pseudo-históricos e com grandes exposições temáticas. Cabe aqui uma breve análise de como essa perda de público deu força à banalização (se podemos usar esse termo) da história.
Mesmo não sendo um exemplo de relato pessoal, o Código da Vinci ilustra bem esse anseio pela simplificação fácil de temas históricos. Como todo mundo sabe, ele conta a história do suposto segredo, guardado a sete chaves pela Igreja, de que Jesus teria gerado filhos com Maria Madalena, dando origem a uma linhagem sagrada. O autor chegou a afirmar que se baseou em documentos de época e relatos apócrifos anônimos para escrever o livro – embora qualquer pessoa bem informada, não necessariamente um acadêmico, saiba que a obra não passa de um romance sensacionalista com algumas referências históricas.
É claro, porém, que a razão para esse desinteresse por obras sérias de história, baseadas em documentação confiável e análise critica das fontes, feitas por acadêmicos honestos, não é apenas a preguiça intelectual de encarar um livro mais árduo. Penso que isso se deve à dificuldade que os historiadores profissionais têm para escrever uma história que seja ativa e de interesse entre a população. Além disso, já vai o tempo em que, influenciadas pelas grandes crônicas nacionais escritas por romancistas, a historiografia primava pela narrativa inspirada, gerando assim grande interesse. É importante notar que a história bem escrita e que se beneficia da narrativa não é necessariamente sensacionalista e de puro entretenimento.
Ironicamente, já há anos, e influenciados pela antropologia, o olhar de muitos historiadores deslocou-se para a vida cotidiana de pessoas normais e cidadãos sem grandes feitos históricos. Dentre eles um em especial, pelo qual tenho grande admiração, escreveu a história de um moleiro italiano, chamado Menochio, que passou pelo Tribunal da Inquisição. Em seu depoimento extraordinário, Menochio desconcertou a todos ao explicitar sua tese de que o mundo era um enorme queijo; de que este pequeno cosmos seria a morada de vermes que dariam sentido ao Todo; e de que esses vermes seriam os homens. Sem dúvida, uma explicação diferente de tudo o que os inquisidores já tinham ouvido. Essa obra muito conhecida, O Queijo e os Vermes, de Carlo Ginsburg, foi um grande sucesso de vendas, traduzido em diversas linuas, mostrando que livros de historia com qualidade podem ter um bom público.
Retomando a questão específica da hipervalorizaçao do relato pessoal e da criação de uma “indústria cultural da memória”, podemos reparar que elas se tornam problemas maiores quando a única fonte que resta são os depoimentos, como no caso da Argentina do período da ditadura. Nesse caso eles foram fundamentais para provar os crimes do Estado, dando uma dimensão jurídica do testemunho pessoal, que não pode ser substituído. É praticamente a única coisa de que se dispõe para julgar e condenar os culpados pelas torturas e mortes. Nesses casos específicos não há discussão.
O que precisamos estar atentos, talvez, é para o fato de que simplesmente confiar no relato pessoal – como se todo o século XX, de Freud a Derrida, não tivesse sido precisamente uma época de critica da experiência – é um erro. Não há relação direta entre fato e recordação. Mas, ao que parece, muitos de nós, entre eles intelectuais e artistas, não se deram conta disso, e continuam vivendo sob a super-estimaçao da vivência pessoal, esse engano que não deixa de ser uma certa vaidade, e que foi chamado por Richard Sennett, em seu clássico O Declínio do Homem Público, de “ditadura da intimidade”. Em resumo, o testemunho traz uma carga do presente que deve ser contrastada com outras fontes, escritas ou não, e que permitam submetê-lo à crítica.
Jimmy Brandon Ávila
quarta-feira, 21 de maio de 2008
O fim de Tom Woolf
É curioso que Tom Wolfe, ele mesmo um best-seller com " A fogueira das Vaidades " junte-se ao coro apocaliptico dos que anunciam a morte do romance.
Já perdi a conta de quantas vezes ouvi falar da tal "morte do romance".Enquanto soam as trombetas funebres, oque vemos é uma produçao e recepçao de romances sem igual na história. Nunca se escreveu tanto, milhoes de romances sao vendidos todos os anos, nos EUA ele é um mercado de bilhoes de dolares com adpataçoes e montagens cenicas.
O que dizer do Brasil entao, onde todo mundo pensa que é escritor!! Do Publitário a atriz da globo, passando pela praga de centenas de alunos de "Oficinas de criaçao" "Escrita Criativa", todo mundo acha que " tem uma boa estoria".
O que me leva a pensar que Woff, só pode estar falando da qualidade e originalidade das obras. Nesse caso nao há dúvida! A maior parte da produçao Literária contemporanea, nao so romanesca, é entretenimento descartavel, sem a menor condiçao de perdurar.
Concordo plenamente com vc no que diz respeito a grande apatia a leitura no Brasil. da vergonha!
É interessante pensar que, no caso especifico da prosa de ficçao, o leitor encontrava uma "traduçao do mundo" nas obras.
Era como se o romance fosse a sintese dos conhecimentos disponivel. Ele desenpenhava um papel que é, hoje, dos livros de Sociologia, Psicologia, Historia e ate de Ciencias.
É celebre a historia do livro de Flaubert chamado, Bouvard e Pecuchet, em que o autor quis reunir todo conhecimento intelectual e pratico disponivel naquele tempo na historia de dois personagens que recebem uma herança e passam a se deticar a todo tipo de estudo.
De certa forma, nao dependemos tanto da prosa de ficçao, sobretudo o romance, para um conhecimento do mundo. Embora, como prega o mais conhecido critico do nosso tempo, Harold Bloom:
" O conhecimento pode estar em todo lugar, mas so podemos encontrar sabedoria nos grandes livros"
Nossa salvaçao é saber que existem SEBALD, COEETZE, SARAMAGO, BOLANO, ROTH, PYNCHON AMOs OZ, IAN McEWAN, GÓNÇALO TAVARES, JONHATAN LETTEL, escritores que deram nova força romance e fizeram com que voltassemos a acreditar na grandeza literária, continuando o legado do "Cavaleiro da Triste figura de La Mancha".
abraços
Torcemos para que o Brasil descubra isso!!!
Já perdi a conta de quantas vezes ouvi falar da tal "morte do romance".Enquanto soam as trombetas funebres, oque vemos é uma produçao e recepçao de romances sem igual na história. Nunca se escreveu tanto, milhoes de romances sao vendidos todos os anos, nos EUA ele é um mercado de bilhoes de dolares com adpataçoes e montagens cenicas.
O que dizer do Brasil entao, onde todo mundo pensa que é escritor!! Do Publitário a atriz da globo, passando pela praga de centenas de alunos de "Oficinas de criaçao" "Escrita Criativa", todo mundo acha que " tem uma boa estoria".
O que me leva a pensar que Woff, só pode estar falando da qualidade e originalidade das obras. Nesse caso nao há dúvida! A maior parte da produçao Literária contemporanea, nao so romanesca, é entretenimento descartavel, sem a menor condiçao de perdurar.
Concordo plenamente com vc no que diz respeito a grande apatia a leitura no Brasil. da vergonha!
É interessante pensar que, no caso especifico da prosa de ficçao, o leitor encontrava uma "traduçao do mundo" nas obras.
Era como se o romance fosse a sintese dos conhecimentos disponivel. Ele desenpenhava um papel que é, hoje, dos livros de Sociologia, Psicologia, Historia e ate de Ciencias.
É celebre a historia do livro de Flaubert chamado, Bouvard e Pecuchet, em que o autor quis reunir todo conhecimento intelectual e pratico disponivel naquele tempo na historia de dois personagens que recebem uma herança e passam a se deticar a todo tipo de estudo.
De certa forma, nao dependemos tanto da prosa de ficçao, sobretudo o romance, para um conhecimento do mundo. Embora, como prega o mais conhecido critico do nosso tempo, Harold Bloom:
" O conhecimento pode estar em todo lugar, mas so podemos encontrar sabedoria nos grandes livros"
Nossa salvaçao é saber que existem SEBALD, COEETZE, SARAMAGO, BOLANO, ROTH, PYNCHON AMOs OZ, IAN McEWAN, GÓNÇALO TAVARES, JONHATAN LETTEL, escritores que deram nova força romance e fizeram com que voltassemos a acreditar na grandeza literária, continuando o legado do "Cavaleiro da Triste figura de La Mancha".
abraços
Torcemos para que o Brasil descubra isso!!!
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