quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Arte E Beleza Na Estetica Medieval






   Umberto Eco é um dos teoricos de cultura que foram  largamente editado no Brasil. Quase todas suas obras encontram-se traduzidas e frequentemente ocorre de um novo livro saido no exterior ter lançamento  simultaneamente  aqui.
  No entanto, O livro que acaba de ter sua ediçao brasileira, " Arte E Beleza Na Estetica Medieval" é uma obra lançada a mais de uma decada., uma lacuna imensa que agora é preenchida na bibliografia brasileira do autor de 75 anos. escritor, filósofo e lingüista incansavel!

Basicamente focado sobre a estética durante o período entre os séculos VI e XV., o livro faz um amplo panorama do entendimeto da natureza da  estetica do periodo, um tempo en que a filosofia da  estetica dava as cartas sobre o assunto e as preocupaçoes sobre o conceito de Belo era o norte dos debates na arte. 

O livro corrige a falsa noção de ausência de sensibilidade estética no universo medieval e faz o retrato da época, que ja foi chamada muitas vezes de idade das trevas.

Ao longo das proximas semanas estara disponivel um ensaio sobre o livro .

 Abraços a todos.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

As lendas de Roberto Bolaño











(Leia na edição impressa do Prosa & Verso uma resenha de "2666" por Celina Manzoni, professora de literatura latino-americana da Universidade de Buenos Aires e organizadora do volume de ensaios "Roberto Bolaño. La escritura como tauromaquia")



Numa longa entrevista que deu à "Playboy" mexicana em 2003, já muito debilitado pela doença hepática que o mataria naquele mesmo ano, Roberto Bolaño fez piada com os críticos que o anunciavam como o escritor latino-americano com mais futuro. "Mas eu sou o escritor latino-americano com menos futuro", respondeu, aproveitando para desdenhar da palavra "póstumo" ("Soa a nome de gladiador romano"). Bolaño morreu em julho daquele ano, na mesma semana em que a revista chegou às bancas, e a entrevista, aconchegada entre fotos de mulheres seminuas, acabou sendo seu obituário mais eloquente.



Nos anos que se seguiram à sua morte, as bravatas de Bolaño sobre a posteridade se tornaram, ironicamente, um dos traços mais distintivos de sua imagem póstuma. Imagem que se construiu em velocidade vertiginosa desde a publicação de "2666", o romance no qual trabalhava ao morrer, e que será lançado no dia 20 pela Companhia das Letras (com tradução de Eduardo Brandão, 856 pgs, R$ 55).



Publicado na Espanha em 2004, "2666" sedimentou o prestígio do autor entre leitores e críticos de língua espanhola. Mas foi a chegada de sua tradução aos EUA, em 2008, que detonou o que a britânica "The Economist" chamou de "bolañomania", fenômeno marcado por uma mistura de reconhecimento literário e mistificação biográfica sobre o escritor. O sucesso inesperado do livro num mercado conhecido por ser refratário a traduções despertou curiosidade em todo o mundo e deu nova dimensão à imagem de Bolaño.



Em entrevista ao GLOBO por e-mail, o editor espanhol Jorge Herralde, diretor da Anagrama, que publicou "2666" e os principais títulos de Bolaño, recorre a uma frase do escritor Enrique Vila-Matas para comentar o furor, às vezes exagerado, em torno do chileno.



— Vila-Matas disse que "com a morte de Bolaño, começa uma lenda". Por um lado, há uma lenda literária: para muitos jovens autores latino-americanos, Bolaño é um "farol", o escritor mais influente, desbancando os grandes do boom. Mas também se elaborou uma lenda nos Estados Unidos, onde Bolaño foi aparentado com os beats de "On the road", e sua morte prematura, sua oposição a Pinochet e o suposto vício em drogas reforçaram uma aura maldita e romântica — diz Herralde, lembrando que os boatos sobre drogas surgiram de um conto em primeira pessoa confundido com relato autobiográfico, apesar dos desmentidos.



Entre as lendas e a consagração crítica



A história por trás de "2666" já é quase tão conhecida quanto o cavalo-de-pau que García Márquez teria dado no carro ao vislumbrar subitamente a primeira frase de "Cem anos de solidão". Depois de trabalhar por anos num romance que dava vazão à sua obsessão pelos assassinatos de mulheres em Ciudad Juárez, Bolaño viu a saúde piorar muito em meados de 2003, quando se aproximava do fim da quinta parte de um livro que já ultrapassava mil páginas. À beira da morte, teria pedido ao editor Jorge Herralde que publicasse a obra em cinco volumes, calculando que assim garantiria o futuro financeiro da mulher e dos dois filhos.



Herralde confirma a lenda em parte, mas em tons menos lúgubres. Lembra o último encontro com Bolaño, quando o escritor apareceu em seu escritório de camisa florida, fragilizado pela doença mas falante e empolgado com o romance. Nestes encontros, diz Herralde, Bolaño costumava provocá-lo ameaçando incluí-lo no livro — o que de fato fez, através do personagem do editor alemão Jacob Bubis, que publica ao longo de quase meio século as obras do recluso escritor Benno von Archimboldi, cuja história se liga de forma misteriosa com os crimes de Ciudad Juárez.



— Ele brincava que Bubis seria inspirado em alguns traços meus e eu respondia "Assim você me assusta" — diverte-se o editor (na foto abaixo, Herralde com Bolaño).



A decisão de contrariar o desejo de Bolaño e publicar "2666" em volume único foi tomada por Herralde e pelo crítico literário Ignacio Echevarría, amigo do autor e encarregado por ele de administrar seu espólio literário. Os dois consideram a escolha um "acerto literário e financeiro", diz Herralde.



Após o lançamento do romance, algumas resenhas levantaram questões sobre o caráter inacabado da obra. Num posfácio incluído na edição espanhola (e reproduzido na brasileira), Echevarría esclarece que o texto publicado corresponde à última versão de cada uma das cinco partes deixadas por Bolaño. Em 2009, porém, o jornal "La Vanguardia", de Barcelona, anunciou a descoberta da suposta "sexta parte" de "2666", que retomaria a narrativa de um dos protagonistas do livro, o professor chileno Oscar Amalfitano.



Em entrevista por e-mail, o crítico Ignacio Echevarría diz que esses rascunhos são apenas "linhas exploratórias descartadas" pelo autor. O crítico também diminui a importância dos textos inéditos encontrados nos arquivos da casa de Bolaño, no balneário catalão de Blanes, como a novela "O Terceiro Reich", recém-lançada na Espanha.



— Até onde eu sei, os inéditos que podem ter sido conservados ou são obras iniciais que ele mesmo decidiu não publicar (como "O Terceiro Reich" e provavelmente "Diorama") ou textos fragmentários, esboços (como "Los sinsabores del verdadero policía o Asesinos de Sonora"). Em todo caso, nada que vá alterar substancialmente a figura e a entidade do escritor que todos já conhecemos — diz Echevarría.







Uma nova geografia literária da América Latina







Relevância literária à parte, os inéditos movimentam a indústria que se ergueu em torno do nome de Bolaño. "O Terceiro Reich" já foi publicado em Portugal e chegará em breve aos EUA e ao Brasil. A tradutora Natasha Wimmer, responsável pelas versões norte-$de "Os detetives selvagens", "2666" e da novela inédita, se diz surpresa com o sucesso do chileno em seu país. Embora reconheça que houve certo exagero nos rumores sobre a vida pessoal do escritor, ela acredita que hoje a atenção de leitores e críticos americanos está mais voltada para sua obra. Natasha cita como exemplo disso o prêmio concedido a "2666" pelo National Book Critics Circle em 2009, feito inédito para um livro póstumo e traduzido.



— Há uma combinação de motivos para o sucesso dele nos EUA. Em primeiro lugar, a fluência sedutora e a ambição estonteante de "Os detetives selvagens" e "2666". Num plano mais abstrato, acho que Bolaño cria uma nova geografia mental para os leitores dos EUA, redefinindo a literatura latino-americana em suas mentes como algo urbano, cerebral e global, em vez de rural, mágico e local. Também acho que Bolaño é lido aqui como uma espécie de visionário, alguém que esteve nas margens esfarrapadas do mundo industrializado e viu o futuro distópico daquele mundo — diz Natasha por e-mail.







A versão brasileira de "O Terceiro Reich", ainda sem data de lançamento, está a cargo do tradutor Eduardo Brandão. Responsável por quase todas as obras de Bolaño publicadas no país (com exceção de "Estrela distante", traduzida por Bernardo Ajzenberg), Brandão vê uma continuidade entre os dois principais livros do chileno:



— São dois romances que contam sagas latino-americanas. "Os detetives selvagens" fala de uma geração de refugiados, que também é a minha, pessoas que deixaram seus países por questões políticas ou sociais. Já "2666" fala de refugiados econômicos, das levas de imigrantes que buscam a fronteira do México com os EUA — diz por telefone Brandão, para quem o público de Bolaño no Brasil é formado por um número crescente e fiel de leitores.



“A posteridade é um mal-entendido”



A esses leitores fiéis, o crítico Ignacio Echevarría recomenda que ignorem as lendas a respeito de um escritor que "não acreditava na posteridade e sentia, por isso mesmo, fascinação pelo esquecimento, pelas empreitadas falidas e pelos poetas ignorados":



— Não é o escritor que inventa sua posteridade e sim a posteridade que inventa os escritores. Como Borges disse a respeito da fama, a posteridade também é um mal-entendido. Mas a obra de Bolaño durará. E chegará o dia em que será preciso abrir espaço através das lendas em busca do verdadeiro Roberto, que terá se tornado, então, um dos escritores secretos que tanto admirava.



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Enviado por Guilherme Freitas - 15.5.2010
8h25m

'2666' e a 'metáfora do horror contemporâneo'



Um dos principais responsáveis pelas denúncias dos assassinatos de mulheres em Ciudad Juárez, o jornalista mexicano Sergio González Rodríguez tornou-se também a maior fonte de informações de Roberto Bolaño sobre o caso. Autor de "Huesos en el desierto" (2002, inédito no Brasil), livro-reportagem que se tornou referência sobre os crimes, González manteve uma longa correspondência com o escritor chileno durante a escrita de "2666" e acabou sendo incorporado ao romance quando, num misto de piada interna e homenagem, o autor o transformou num de seus personagens. Em entrevista ao GLOBO por e-mail, o jornalista fala sobre sua amizade com Bolaño e sobre a violência em Ciudad Juárez.



Como começou seu envolvimento com o caso de Ciudad Juárez? Você conta em "Huesos en el desierto" que foi sequestrado, agredido e ameaçado durante sua investigação. As ameaças continuam?



SERGIO GONZÁLEZ: Em 1996, chamaram minha atenção as notícias reiteradas sobre cadáveres de mulheres jovens encontrados em Ciudad Juárez. Elas eram vítimas de abusos sexuais depois de desaparecer de locais públicos, foram sequestradas a caminho do trabalho, de casa, da escola. Ou simplesmente desapareciam quando iam fazer compras. Quis indagar a veracidade destes fatos: logo descobri que naqueles casos se encontrava um drama de enorme transcendência. No livro registro as ameaças, sequestros e golpes que sofri enquanto investigava. Uma vez acabei no hospital e fui salvo por pouco. Depois de publicar o livro recebi mais ameaças de morte e sequestro. E vivo sob o assédio constante das intervenções em minha comunicação por telefone e e-mail. Mas tenho sorte. Nos últimos dez anos, foram assassinados 59 jornalistas no México e oito estão desaparecidos. Estudei Letras, trato de fazer muitas outras coisas: escrevo e publico sobre literatura, cinema, artes etc. Acabo de publicar um romance que não tem nada a ver com os femicídios nem com o narcotráfico. E insisto em exigir que as autoridades cumpram suas responsabilidades. As ameaças estão sempre aí, latentes. Não escolhi isso, mas tenho que me manter à altura do desafio.



Como você conheceu Roberto Bolaño? Em que momento ele começou a buscar informações para o romance?



GONZÁLEZ: Conheci Bolaño pessoalmente quando fui apresentar "Huesos en el desierto" em Barcelona, em 2002, mas já trocávamos e-mails há alguns anos. Em 1999, decidi escrever um livro sobre os assassinatos de mulheres em Ciudad Juárez e comuniquei Jorge Herralde, meu editor na Anagrama e também editor de Bolaño. Ele soube do meu livro por Herralde e quis lê-lo antes que fosse publicado. Enquanto ele trabalhava o tema do ponto de vista ficcional, eu queria escrever um livro de não-ficção. Com o tempo, passei a pensar no meu livro como a contraparte indicial-documental de "2666". Suponho que Bolaño começou a se informar sobre o tema no fim da década anterior. Nas mensagens, ele demonstrava um conhecimento profundo do tema, embora desse um foco romanesco a suas leituras.



Os assassinatos de Ciudad Juárez ocupam um lugar central em "2666" e na cosmogonia de Bolaño: um personagem do romance chega a dizer que "ninguém presta atenção nestes assassinatos, mas neles se esconde o segredo do mundo". Em sua correspondência, Bolaño falava sobre o que Ciudad Juárez significava para ele?



GONZÁLEZ: Para Bolaño, Ciudad Juárez, que em seu romance se chama Santa Teresa, era a metáfora do horror contemporâneo. A extensão do extermínio dos campos de concentração nazistas. A barbárie sem limites. Bolaño me dizia que era contra toda forma de violência. Escrever com detalhes e reconstruir um a um os assassinatos cometidos durante um período específico deve ter sido uma tarefa exaustiva e terminal. Ele morreu pouco depois de entregar o romance a Herralde. É o caso arrepiante de um escritor que dá a vida para escrever um romance, uma obra-prima.



Em uma crônica sobre "Huesos en el desierto", Bolaño escreve que Ciudad Juárez é uma metáfora "do incerto futuro de toda América Latina". Como você interpreta esta declaração?



GONZÁLEZ: O pessimismo de Bolaño era fundamentado: o que acontece em Ciudad Juárez expressa, infelizmente, as diretrizes comuns das sociedades latino-americanas, onde os desejos democráticos são sufocados por inúmeras limitações. E a corrupção, a exploração, a ganância desmedida por parte dos poderes corporativos, as classes políticas corruptas e o auge do crime organizado, entrelaçado com a esfera jurídica. Se a isso acrescentamos a pobreza e a desigualdade seculares, a situação é muito adversa. O diagnóstico de Bolaño a cada dia se torna mais correto.



No livro, você cita o filósofo Paul Ricoeur para justificar sua investigação: "Há crimes que não devem ser esquecidos, vítimas que pedem menos vingança do que narração". Como narrativas de ficção, como a de Bolaño, e não-ficção, como a sua, desempenham esse "dever de memória"?



GONZÁLEZ: Acredito que Bolaño queria escrever um romance global sobre os horrores do século XX. As premissas da ficção lhe permitiram interconectar tempos e espaços distintos, e erguer uma trama expansiva. Distinguem-se ali os imperativos de um romancista. Minha perspectiva e exigência eram distintas: eu tinha que documentar uma série de fenômenos, situar um contexto, reconstruir a atmosfera da época, incluir múltiplos relatos, revelar um processo temporal, fazer com que as vítimas falassem, além de incluir meu ponto de vista. O pano de fundo era a obrigação da memória, sobretudo num país como o México, e como muitos da América Latina. Você sabe que até agora as autoridades mexicanas afirmam que nunca houve assassinatos sistemáticos de mulheres em Ciudad Juárez, que nunca houve esse tipo de vítimas, que tudo aquilo é um mito, uma lenda obscura mal-intencionada? Sem meu livro e os de outros, sem os informes dos especialistas da ONU e da Anistia Internacional, os fatos teriam ficado reduzidos a aquilo que desejam assassinos e autoridades cúmplices: mera fantasia.



Como você se sentiu ao ler "2666"? O que pensa do personagem que leva seu nome?



GONZÁLEZ: Levei meses para conseguir ler "A parte dos crimes". Em cada página eu voltava a enfrentar o horror que tinha vivido. Quando o visitei em Blanes, em 2002, Bolaño me contou, rindo, que ia me incluir em "2666". Era uma brincadeira intertextual que me instalava com um pé na literatura e outro na realidade. Acho que até hoje não saí desse lugar onde Bolaño me deixou. E nem acho que vou conseguir. O personagem com meu nome em "2666" é uma sombra que gravita ao meu redor todos os dias. É o legado de Bolaño que devo resguardar. "Com Sergio, sim, eu iria à guerra", ele escreveu sobre mim. Era como me dizer: "Amanhã na batalha pensa em mim". Não há um dia em que eu não pense em Roberto Bolaño.



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sexta-feira, 14 de maio de 2010

ARTE Inflacionada.


Nova York, setembro de 2008: estoura a bolha do crédito americano. O anúncio da falência da empresa financeira Lehman Brothers culminou numa recessão econômica mundial. Londres, setembro de 2008: por US$ 15 milhões é vendida a obra Bezerro de Ouro, do britânico Damien Hirst, na casa de leilões Sotheby’s. A peça expõe um animal morto e mantido sob formol adornado com chifres e patas de ouro 18 quilates. O leilão foi assistido por milhares de visitantes e massivamente comentado, fechando em US$ 198 milhões em apenas dois dias. Um sucesso muito além das expectativas: quebrou o recorde de vendas para um leilão de um único artista. O momento marcou o início de uma crise econômica global e também, profundamente, o mercado da arte contemporânea, levantando a questão: qual é o valor da arte?




No dicionário, arte é definida como “a expressão ou a aplicação de habilidade criativa e imaginação humana, tipicamente em uma forma visual, tais como pintura ou escultura, produzindo trabalhos para serem apreciados principalmente por sua beleza e poder emocional”. Uma explicação aberta a diversas interpretações.



Muitas vezes, ao visitarmos exposições, nos perguntamos se as obras seriam mesmo dignas de apreciação por sua beleza. Por vezes, fica difícil saber o que é arte. A compreensão de uma obra, por seu poder estético ou emocional, está muito ligada à interpretação individual, que pode ser influenciada por preferências pessoais, pela crítica ou pela mídia em geral. Entretanto, sua valorização monetária tem razões abstratas e coloca cada vez mais em questão o significado das manifestações artísticas. Após o leilão de Hirst, o respeitado jornal britânico The Guardian publicou crítica em que afirmava: “Damien Hirst é uma marca, porque a forma de arte do século 21 é o marketing”.



O mercado viu preços astronômicos serem alcançados desde 2006. Em seu ápice, entre 2007 e 2008, compradores pagaram US$ 19,3 milhões pela Cabine de pílulas de Hirst ou telas rasgadas como Concetto Spaziale, la Fine di Dio, de Lúcio Fontana; US$ 23,6 milhões por um enorme coração brilhante com laços dourados do americano Jeff Koons; US$ 72 milhões por uma impressão em tela de dois carros em colisão de Andy Warhol; US$ 73 milhões pela obra simplista White Center de Mark Rothko e US$ 86 milhões pelo Triptych de Francis Bacon. Mas o recorde pago por uma obra de arte foi para Jackson Pollock com o trabalho n. º 5, 1948, vendido por US$ 140 milhões em 2006.



Estes artistas foram extremamente valorizados, alguns se tornaram mitos, seja por suas habilidades artísticas, seja obras polêmicas, alto investimento financeiro ou grande atenção da mídia. Premiações britânicas como o Turner e programas de TV também impulsionaram o valor de suas produções. Porém, os elevados preços podem acabar, em sentido inverso, destruindo seus significados, reduzindo-os a símbolos do excesso.



A valorização de obras de arte segue algumas regras em que beleza ou emoção parecem não ser o mais importante. “E talento não é requisito para valorização, infelizmente”, comentou o artista plástico Bernardo Pitanguy. Sobre o valor de uma obra, completou: “Alguns trabalhos chegam a preços milionários devido a preferência de um define grupo disposto a comprá-las. O que determina um objeto como obra de arte é o público”. Outra regra lembrada por Pitanguy é sobre o valor que o tempo tem para a arte. “Não se pagam altos valores por obras novas, geralmente elas têm um tempo de vida e uma história até chegarem a ser valorizadas.”



JOVENS ARTISTAS BRITÂNICOS

A geração de jovens artistas britânicos megavalorizados apareceu no início dos anos 1990, sacudindo o mundo com escândalos. Artistas como Tracey Emin, Sarah Lucas ou Marcus Harvey vieram para desafiar o conceito de arte e levantar a questão sobre o significado de expressões artísticas. Obras como Minha cama de Emin, que traz uma cama de casal desarrumada e rodeada por camisinhas usadas, lubrificantes e cinzas de cigarro, ou a tábua com dois ovos fritos e um kebab, de Lucas, que causou controvérsia quanto à nudez feminina, fazem este questionamento.



Entre os artistas desta geração, nenhum foi mais comentado que o homem que apresentou ao mundo um tubarão preservado no formol em uma vitrine como nova forma de arte: Hirst, 44 anos, ficou conhecido por trabalhos que tinham a morte como tema central. Obras utilizando outros bichos no formol (vaca, ovelha e zebra) marcaram época. Em 2007, o artista apresentou uma caveira coberta com diamantes, que custou US$ 21 milhões para ser executada. O valor artístico de sua produção sempre foi muito questionado, assim como as altas cifras alcançadas pela venda de seus trabalhos. Apontado na lista anual do jornal inglês The Sunday Times dedicada aos mais endinheirados, sem dúvida Hirst é o artista britânico mais rico da atualidade, com fortuna estimada em US$ 330 milhões. “Sempre achei que dinheiro é uma ferramenta fantástica para fazer as pessoas levarem você a sério. Assim como os idiomas são algo esplêndido, o dinheiro é como uma chave. Uma chave para o mundo”, afirmou Hirst. “Algo que adorei depois do leilão (em 2008) foi andar no centro comercial de Londres e ser reconhecido por homens de negócios. Eu nunca tive isso antes”.



Mas qual o segredo de tanto sucesso? Os bastidores do prestígio da geração de jovens artistas britânicos ajuda a entender a questão. O milionário colecionador árabe Charles Saatchi, dono de uma galeria de arte em Londres que leva seu sobrenome, foi forte patrocinador desta geração. Saatchi conheceu Hirst durante a modesta exposição Freeze (1991) e encantou-se com a primeira instalação “animal” do artista, em que larvas e moscas rodeavam a cabeça de uma vaca em decomposição dentro de um enorme contêiner de vidro. Ele comprou a obra e virou o principal colecionar de Hirst, além de patrocinador do que veio a ser chamado mais à frente de YBA [sigla em inglês para jovens artistas britânicos]. As compras de Saatchi influenciaram fortemente os altos e baixos do mercado da arte inglesa. Havia grande visibilidade dos trabalhos pelos quais ele se interessasse, motivo de disparo de preços e forte especulação. Em entrevista recente, o homem responsável pela inflação de preços no mercado da arte contemporânea nos últimos dez anos disse que nunca pensa no mercado antes de comprar novas obras e aceita ser o responsável pela especulação de preços. “Artistas precisam de muitos colecionadores, de todos os tipos, comprando suas obras de arte”, comentou. “Às vezes, você tem que comprar arte que não tem valor nenhum para ninguém, mas sim para você, porque você gosta e acredita na obra.”



Hans Ulrich Obrist, curador da charmosa Galeria Serpentine, em Londres, e eleito em 2009 a pessoa mais influente no mundo da arte pela revista Art Review, acredita que os grandes artistas sempre mudam o que se espera da arte. “Há o famoso fator ‘surpreenda-me’. A palavra ‘contemporâneo’ vem do latim ‘contemporanius’, que significa ‘com o tempo’. O que fica sugerido é uma pluralidade de temporalidades que atravessam o espaço e continuam até hoje em escala global.” Obrist alertou também sobre o perigo que existe para o que chama de “homogeneização de práticas”, onde a diferença desaparece. “Todo o mundo fazendo o mesmo leva a um empobrecimento. E, de alguma forma, trata-se como produzir a diferença. É por isso que não pode haver uma receita que diga: ‘Tem que ser dessa maneira. Um artista tem que ser assim’. É algo que tem realmente a ver com encontrar seu próprio caminho.” O curador afirma que estamos vivendo uma grande transformação no mundo da arte. “É possível ver ao longo do século 20, havia uma corrida para ser o centro absoluto do mundo da arte, com Paris, Nova York e Londres disputando, mas agora vemos isso na China, na Índia e em lugares como o Brasil. Existe uma verdadeira polifonia. “É uma mudança importante no mundo da arte”, celebra o suíço.









PREÇO E VALOR

O que torna um objeto uma obra de arte? A resposta está na história recente.



A Pop Art veio com a famosa lata de sopa Campbell’s de Andy Warhol e uma geração de artistas, como Roy Lichtenstein, que nos anos 1950 criava baseada em material de publicidade, quadrinhos e ideias dominantes na cultura de massa - uma reação contrária ao expressionismo abstrato da época. Era pop porque estava no imaginário coletivo. Era arte porque supostamente combinada com outras ideias, levava ao conceito de fine art.



Warhol foi muito valorizado em vida. Ele desafiava a arte pintando produtos de marcas americanas, notas de dólares e celebridades. Sua técnica de impressão em tela trouxe inovação e marcou um estilo. O homem que fez da arte dinheiro assumia sua inclinação capitalista publicamente em citações marcantes como: “Fazer dinheiro é arte; trabalhar é arte; fazer bons negócios é a melhor arte”. Ou então: “Uma senhora amiga minha me perguntou: ‘O que você mais ama? ’ Foi assim que comecei a pintar dinheiro”.



Outros artistas tornaram-se conhecidos por escandalizar o mundo da arte e trazer ideias absurdas como questionamentos, consideradas anti-arte. Com o trabalho Fountain, o francês Marcel Duchamp desafiava a criatividade individual e redefinia arte ao apresentar um mictório como obra artística em 1917, criando o conceito intitulado Readymades (Coisas prontas). Apesar de rejeitado na época, o mictório é um marco, grande atração do Centro de Arte Moderna George Pompidou, em Paris. Em 2009, o Pompidou apresentou, com grande importância, a mostra Vazios. A exposição, uma retrospectiva de 51 anos de exibições, trazia cinco salas completamente vazias. As paredes eram brancas e os pisos, vazios. A iluminação foi arranjada tão cuidadosamente como para qualquer outra exposição temporária. Os guardas olhavam com desconfiança para se certificar de que os visitantes não tocassem em nada - a diferença é que não havia nada para ser tocado. Nove artistas foram responsáveis pela exibição do nada: um passeio de reflexão e alta carga de interpretação. Os visitantes se olhavam sem compreender, entre sorrisos amarelos. O catálogo de 500 páginas era vendido por US$ 50 e o ingresso, em torno de US$ 13. A ideia já havia sido experimentada na Bienal Internacional de São Paulo e, anos antes, no museu Tate Britain, em Londres.



TALENTO BRASILEIRO

Helio Oiticica, José Damasceno, Lygia Clark, Lygia Pape, Vik Muniz, Rivane Neuenschwander e Beatriz Milhazes são alguns nomes de artistas contemporâneos brasileiros reconhecidos internacionalmente. O interesse pelas artes do país pode também estar no preço. “Quando comparados a nomes internacionais, são bastante razoáveis", afirmou Isabel Mignoni, diretora da Galeria Elvira Gonzalez, de Madri, uma das mais prestigiadas da Espanha. A galeria exibiu uma mostra individual do carioca Waltércio Caldas em que as esculturas mais caras estavam na faixa dos US$ 73 mil.











Beatriz Milhazes, também carioca, é reconhecida pelo uso de cores vibrantes e sedutoras, muito influenciada pela natureza e o carnaval do Rio de Janeiro. Seus quadros foram exibidos em museus de Nova York e Paris, e um de seus trabalhos estará no próximo leilão da Christie’s, neste mês, com valor inicial de US$ 200 mil.



Lygia Pape, falecida em 2004, foi citada por Hans Olbrist como exemplo de talento brasileiro na arte contemporânea. Ao lado dos colegas Helio Oiticica e Lygia Clark, foi uma das fundadoras dos movimentos Concretismo e Neoconcretismo, que visava expandir as dimensões da arte. A escultura geométrica de alumínio Bicho (1960) esteve em leilão na Inglaterra mês passado pelo valor de US$ 275 mil.



Outro artista de sucesso e exemplo de criatividade é Vik Muniz, que desafia conceitos usando material comestível. Assim já fez duas réplicas de Mona Lisa, de Leonardo Da Vinci, usando geleia e manteiga de amendoim. Também trabalhou com açúcar, fios, arame e xarope de chocolate para uma recriação da Última Ceia, de Da Vinci. Ele registra seus trabalhos em fotografia e apresenta as imagens em suas exposições. Vik teve obras exibidas no museu Victoria & Albert, em Londres, e no MOMA, em Nova York, além de outros renomados museus e galerias.



ESTRELA DA MORTE

Recentemente, Damien Hirst citou Van Gogh como talvez o exemplo mais pungente de um artista pouco apreciado em vida e cuja fama e valorização surgiram somente muitos anos após sua morte. O holandês ficaria orgulhoso ao ver as filas gigantescas na porta da Academia Real de Artes, em Londres, para a exposição que revela sua correspondência. “Sempre foi meu desejo pintar para aqueles que não sabem o lado artístico da pintura”, revelou Van Gogh em uma de suas cartas. Entre autorretratos, paisagens, girassóis e ciprestes, ele tem os trabalhos mais caros e famosos do mundo na atualidade.



Outros exemplos de sucesso póstumo são os britânicos William Hogarth, Thomas Gainsborough e Joseph Mallord William Turner, este último famoso por suas pinturas de paisagens e marinhas. Todos tiveram muito poucos admiradores em vida e foram duramente criticados e condenados. Sobre o valor da morte para o sucesso, Warhol dizia: “A morte significa muito dinheiro, querido. A morte pode realmente fazer você virar uma estrela”.













LIQUIDAÇÃO

De acordo com o anuário publicado pela Sotheby’s em março deste ano, 2009 trouxe queda de 30% nas vendas de obras de arte. Um novo efeito Damien Hirst parece improvável. Desde o famoso leilão em 2008, Hirst não tem vendido seus trabalhos com a mesma força e muitos preços caíram pela metade em leilões mundo afora.



Durante os primeiros seis meses do ano passado, nenhum trabalho foi vendido por mais de US$ 10 milhões. O preço mais alto alcançado foi de US$ 7,9 milhões, em maio, por uma pintura de David Hockney (1966), Beverly Hills Housewife, negociado na Christie's.



“Na época da crise, as pessoas não sabiam o que a arte ou eles mesmos valiam", explicou Francis Outred, diretor europeu do Departamento de Arte Contemporânea da Christie's. "Os compradores estavam trocando olhares na sala de vendas do leilão e esperando que alguém desse o lance."



Uma tela do pintor britânico Jenny Saville, conhecido por seus retratos de pessoas nuas um pouco acima do peso, foi colocada à venda pela Christie's na Feira de Arte de Maastricht, em 2007, por US$ 1,4 milhão. Acabou leiloada em Londres em fevereiro de 2009 por metade desse valor. Em abril de 2008, uma pintura do artista chinês Zhang Xiaogang, Bloodline (Big Family) Número 3, foi vendida por US$ 6,1 milhões, um recorde para um artista chinês contemporâneo. Mas, em novembro do mesmo ano, outra pintura dessa série alcançou “apenas” US$ 3,4 milhões.



200 notas de um dólar, de Andy Warhol, tornou-se a obra contemporânea mais cara vendida em 2009: US$ 43,7 milhões. "Foi o acontecimento mais importante da temporada", comentou Tobias Meyer, diretor mundial do Departamento de Arte Contemporânea da Sotheby’s. "Até então, nada era negociado acima de 20 milhões de dólares no mercado.”



O boom da arte contemporânea estava associado ao estouro da oferta de crédito. Assim como os valores do sistema econômico foram abalados com a crise, também foram as artes nesse período. A recessão não só refletiu nos preços, mas na maneira como a crítica define suas preferências. Na lista dos 100 nomes mais poderosos do mundo da arte, publicada anualmente pela revista Art Review, Damien Hirst tombou do topo para o 48º lugar. O artaholic Charles Saatchi, hoje muito associado com a arte de dez anos atrás, caiu do 14º para 72º. ©











O LIXO DA ARTE



Um experimento provocante do artista Michael Landy chegou ao fim mês passado em Londres: O lixo da arte. Durante seis semanas ele convidou pessoas a jogarem fora trabalhos colecionados, usando uma enorme vitrine transparente de 2 metros. A curiosidade era saber do que o público estaria disposto a se livrar. Mais de mil peças foram descartadas por mais de 400 pessoas. Era a celebração do fracasso artístico. Landy, que faz parte da geração de jovens artistas britânicos (YBA), iniciou o experimento rejeitando o que não o satisfazia, entre eles um gigante quadro de Damien Hirst, uma caveira resplandecente que parecia estar sorrindo à destruição acumulada em torno dela. Havia algo de bonito em ver a maneira como aquelas obras voavam em queda livre se espatifando em pedaços. Era a aniquilação da arte.



Estudantes, pessoas comuns e galerias deram sua contribuição enviando artes consideradas inúteis e sem valor. No fim do experimento, todo o material foi enviado para reciclagem e a maior parte doada para estúdios e escolas de arte.



Apesar de ter acumulado muita coisa, poucas obras mostraram-se profundas o bastante para fazer o experimento bem sucedido. “Não acho que poderia fracassar nunca”, comentou Landy. “Não importa o número de obras de arte na lixeira. Esses trabalhos descartados podem ter sido fracassos individuais, mas acho que todos juntos são um grande sucesso.” Landy ficou famoso por seu gosto pela destruição. Em Break Down (2001), ocupou uma área vazia de uma loja de departamentos na movimentada Oxford Street de Londres e destruiu sistematicamente mais de sete mil objetos pessoais, incluindo seu carro e passaporte.

sábado, 8 de maio de 2010

A república digital das letras O passado e o futuro do livro – e do ideal iluminista de torná-lo acessível a todos – são examinados em ensaios pelo diretor da biblioteca de Harvard Jerônimo Teixeira William Manning/Corbis/Latinstock CENTRO DO SABER Biblioteca Pública de Nova York: bem mais do que um depósito de livros Desculpe se o que estou dizendo parece cheio de santimônia", diz o historiador americano Robert Darnton, 71 anos, depois de uma apaixonada defesa da atualidade do livro em papel. Ao longo de sua entrevista a VEJA (veja o quadro abaixo), Darnton esboçou várias desculpas do mesmo teor: seu tom estaria muito sentencioso, ou até mesmo pio, como o de um pregador religioso. É compreensível. Darnton é uma autoridade na história do livro, autor de O Iluminismo como Negócio e Edição e Sedição, entre outros estudos fundamentais sobre o mercado livreiro na França do século XVIII – e sua relação com o explosivo contexto político que culminaria na Revolução de 1789. O objeto de seus estudos propicia o tom elevado: veículo de vários textos sagrados, o livro é também o centro de um certo culto laico, celebrado em bibliotecas como a da Universidade Harvard, da qual Darnton é diretor. Mas o historiador não se vale dessas metáforas religiosas: nos termos do Iluminismo do século XVIII, ele prefere falar na República das Letras – um país desprovido de fronteiras, no qual todos, leitores e autores, poderiam discutir e trocar ideias sem censura ou restrições. A internet, com sua capacidade inaudita de divulgar textos e imagens, tem, sem dúvida, o potencial de expandir essa república virtual – e Darnton examina essas possibilidades ao mesmo tempo com entusiasmo e ponderação em A Questão dos Livros (tradução de Daniel Pellizzari; Companhia das Letras; 232 páginas; 42,50 reais), coletânea de ensaios recém-lançada no Brasil. "Este é um livro sobre livros, uma apologia descarada em favor da palavra impressa e seu passado, presente e futuro", anuncia a introdução da obra. Consumado rato de arquivos (em um dos ensaios, ele relata a experiência de ler, na íntegra, o arquivo de 50 000 cartas referentes aos negócios de uma editora franco-suíça do século XVIII), Darnton é amante do papel, do prazer visual e tátil que se extrai do contato com um livro (em particular, com obras antigas e raras). Ele aposta na sobrevivência do códice, o formato de livro que surgiu em torno do século III – com páginas que são viradas, e não desenroladas, como nos rolos de pergaminho que até então conservavam a palavra escrita – e alcançou um público leitor cada vez maior a partir da invenção da imprensa, na década de 1450. Será simplista, argumenta ele, imaginar que uma nova tecnologia vai substituir completamente e de imediato formas mais antigas. A televisão não acabou com o rádio, e nem o YouTube acabou com a TV. O livro em papel, portanto, deverá conviver muito tempo com leitores eletrônicos como o Kindle e o iPad. Os formatos eletrônicos, porém, configuram um desafio para os bibliotecários, que terão de desenvolver novos métodos e protocolos para conservar o conhecimento em forma digital. "Os arquivos digitais são compostos de números binários, que se corrompem e degradam. E a tecnologia avança rapidamente. Muitos formatos de arquivo se tornam obsoletos e difíceis de acessar em um prazo de poucos anos", alerta Darnton. Outro grande esforço exigido das bibliotecas – o de tornar seus acervos acessíveis on-line – esbarra em problemas não só tecnológicos, mas também legais. A Questão dos Livros faz um exame crítico do ambicioso projeto do Google para digitalizar as obras de algumas das maiores bibliotecas universitárias do mundo, inclusive a de Harvard. O Google Book Search foi contestado por associações americanas de autores e editores, que reclamavam o respeito aos direitos autorais das obras digitalizadas que ainda não se encontram em domínio público. O entrave foi contornado, em 2008, por um acordo entre o Google e essas associações – o qual, no entanto, ainda depende de aprovação judicial. Darnton observa que o acordo, por sua extensão, tornaria o Google Book Search imune à concorrência. O próprio Departamento de Justiça americano já contestou a iniciativa, por seu caráter monopolista. O Google Book Search é o tópico mais "momentoso" de A Questão dos Livros. Mas a coletânea não se esgota aí: é rica em digressões saborosas sobre as diferentes edições de Shakespeare ou as leituras de Thomas Jefferson. Darnton é, sobretudo, um historiador, um homem que oferece perspectivas amplas para seus temas. E seu assunto central exige isso mesmo: não há objeto mais amplo do que o livro. Uma missão civilizadora O historiador Robert Darnton falou a VEJA sobre o papel das bibliotecas e a polêmica iniciativa de digitalização de livros do Google. Catherine Helie/Gallimard/Opale PRAZER DO PAPEL Robert Darnton: "Apologia descarada da palavra impressa" O senhor afirma que a biblioteca é o centro da vida universitária. Faz sentido falar nesses termos quando os estudantes hoje contam com a internet, que não tem um "centro"? Não devemos pensar nas bibliotecas como meros depósitos de livros, ou como museus em que exemplares raros são expostos em cúpulas de vidro. A biblioteca é um centro de organização do conhecimento – o que se torna ainda mais importante em um universo confuso e sem forma como a internet. Sei que isso pode soar sentencioso, mas acredito nessa missão central das bibliotecas. E a biblioteca de bairro ou de cidade pequena ainda cumpre a mesma função para o leitor comum? Sim, e está incorporando novas funções. Faço parte do conselho da Biblioteca Pública de Nova York, que, além de seu conhecido prédio central na Quinta Avenida, administra várias unidades de bairro. A visitação delas aumentou depois da crise econômica. Os trabalhadores que perderam o emprego e não têm computador em casa vão lá para buscar empregos on-line. O senhor é um crítico do Google Book Search, projeto que pretende digitalizar o acervo de grandes bibliotecas – inclusive a de Harvard – e oferecer acesso aos livros na internet. Por quê? O Google tem feito um trabalho maravilhoso de digitalização do acervo dessas bibliotecas. Mas, como toda empresa privada, tem por objetivo dar lucro a seus acionistas. Os objetivos das bibliotecas são distintos – entre eles, oferecer conhecimento público. Esse conhecimento não pode ser detido por uma empresa só. O acordo sobre direitos autorais do Google configura uma situação de monopólio.

A república digital das letras

O passado e o futuro do livro – e do ideal iluminista de torná-lo
acessível a todos – são examinados em ensaios pelo diretor
da biblioteca de Harvard


Jerônimo Teixeira
William Manning/Corbis/Latinstock
CENTRO DO SABER
Biblioteca Pública de Nova York: bem mais do que um depósito de livros

Desculpe se o que estou dizendo parece cheio de santimônia", diz o historiador americano Robert Darnton, 71 anos, depois de uma apaixonada defesa da atualidade do livro em papel. Ao longo de sua entrevista a VEJA (veja o quadro abaixo), Darnton esboçou várias desculpas do mesmo teor: seu tom estaria muito sentencioso, ou até mesmo pio, como o de um pregador religioso. É compreensível. Darnton é uma autoridade na história do livro, autor de O Iluminismo como Negócio e Edição e Sedição, entre outros estudos fundamentais sobre o mercado livreiro na França do século XVIII – e sua relação com o explosivo contexto político que culminaria na Revolução de 1789. O objeto de seus estudos propicia o tom elevado: veículo de vários textos sagrados, o livro é também o centro de um certo culto laico, celebrado em bibliotecas como a da Universidade Harvard, da qual Darnton é diretor. Mas o historiador não se vale dessas metáforas religiosas: nos termos do Iluminismo do século XVIII, ele prefere falar na República das Letras – um país desprovido de fronteiras, no qual todos, leitores e autores, poderiam discutir e trocar ideias sem censura ou restrições. A internet, com sua capacidade inaudita de divulgar textos e imagens, tem, sem dúvida, o potencial de expandir essa república virtual – e Darnton examina essas possibilidades ao mesmo tempo com entusiasmo e ponderação em A Questão dos Livros (tradução de Daniel Pellizzari; Companhia das Letras; 232 páginas; 42,50 reais), coletânea de ensaios recém-lançada no Brasil.
"Este é um livro sobre livros, uma apologia descarada em favor da palavra impressa e seu passado, presente e futuro", anuncia a introdução da obra. Consumado rato de arquivos (em um dos ensaios, ele relata a experiência de ler, na íntegra, o arquivo de 50 000 cartas referentes aos negócios de uma editora franco-suíça do século XVIII), Darnton é amante do papel, do prazer visual e tátil que se extrai do contato com um livro (em particular, com obras antigas e raras). Ele aposta na sobrevivência do códice, o formato de livro que surgiu em torno do século III – com páginas que são viradas, e não desenroladas, como nos rolos de pergaminho que até então conservavam a palavra escrita – e alcançou um público leitor cada vez maior a partir da invenção da imprensa, na década de 1450. Será simplista, argumenta ele, imaginar que uma nova tecnologia vai substituir completamente e de imediato formas mais antigas. A televisão não acabou com o rádio, e nem o YouTube acabou com a TV. O livro em papel, portanto, deverá conviver muito tempo com leitores eletrônicos como o Kindle e o iPad.
Os formatos eletrônicos, porém, configuram um desafio para os bibliotecários, que terão de desenvolver novos métodos e protocolos para conservar o conhecimento em forma digital. "Os arquivos digitais são compostos de números binários, que se corrompem e degradam. E a tecnologia avança rapidamente. Muitos formatos de arquivo se tornam obsoletos e difíceis de acessar em um prazo de poucos anos", alerta Darnton. Outro grande esforço exigido das bibliotecas – o de tornar seus acervos acessíveis on-line – esbarra em problemas não só tecnológicos, mas também legais. A Questão dos Livros faz um exame crítico do ambicioso projeto do Google para digitalizar as obras de algumas das maiores bibliotecas universitárias do mundo, inclusive a de Harvard. O Google Book Search foi contestado por associações americanas de autores e editores, que reclamavam o respeito aos direitos autorais das obras digitalizadas que ainda não se encontram em domínio público. O entrave foi contornado, em 2008, por um acordo entre o Google e essas associações – o qual, no entanto, ainda depende de aprovação judicial. Darnton observa que o acordo, por sua extensão, tornaria o Google Book Search imune à concorrência. O próprio Departamento de Justiça americano já contestou a iniciativa, por seu caráter monopolista.
O Google Book Search é o tópico mais "momentoso" de A Questão dos Livros. Mas a coletânea não se esgota aí: é rica em digressões saborosas sobre as diferentes edições de Shakespeare ou as leituras de Thomas Jefferson. Darnton é, sobretudo, um historiador, um homem que oferece perspectivas amplas para seus temas. E seu assunto central exige isso mesmo: não há objeto mais amplo do que o livro.

Uma missão civilizadora

O historiador Robert Darnton falou a VEJA sobre o papel das bibliotecas
e a polêmica iniciativa de digitalização de livros do Google.
Catherine Helie/Gallimard/Opale
PRAZER DO PAPEL
Robert Darnton: "Apologia descarada
da palavra impressa"

O senhor afirma que a biblioteca é o centro da vida universitária. Faz sentido falar nesses termos quando os estudantes hoje contam com a internet, que não tem um "centro"?

Não devemos pensar nas bibliotecas como meros depósitos de livros, ou como museus em que exemplares raros são expostos em cúpulas de vidro. A biblioteca é um centro de organização do conhecimento – o que se torna ainda mais importante em um universo confuso e sem forma como a internet. Sei que isso pode soar sentencioso, mas acredito nessa missão central das bibliotecas.
E a biblioteca de bairro ou de cidade pequena ainda cumpre a mesma função para o leitor comum?
Sim, e está incorporando novas funções. Faço parte do conselho da Biblioteca Pública de Nova York, que, além de seu conhecido prédio central na Quinta Avenida, administra várias unidades de bairro. A visitação delas aumentou depois da crise econômica. Os trabalhadores que perderam o emprego e não têm computador em casa vão lá para buscar empregos on-line.
O senhor é um crítico do Google Book Search, projeto que pretende digitalizar o acervo de grandes bibliotecas – inclusive a de Harvard – e oferecer acesso aos livros na internet. Por quê?
O Google tem feito um trabalho maravilhoso de digitalização do acervo dessas bibliotecas. Mas, como toda empresa privada, tem por objetivo dar lucro a seus acionistas. Os objetivos das bibliotecas são distintos – entre eles, oferecer conhecimento público. Esse conhecimento não pode ser detido por uma empresa só. O acordo sobre direitos autorais do Google configura uma situação de monopólio.